<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329</id><updated>2012-02-17T02:17:41.336-02:00</updated><title type='text'>Beije-Me Idiota      v. 2.1</title><subtitle type='html'>"Pensa: o tempo anda sempre e não repousa; esta vida não vale grande coisa." ("Esta Vida", Guilherme de Almeida)
* AGORA ATUALIZADO DIA SIM, DIA NÃO. *</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-3325741095093498723</id><published>2007-10-19T18:31:00.001-02:00</published><updated>2007-10-19T18:56:37.247-02:00</updated><title type='text'>... e foi aí que começaram meus problemas.</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxkZoWszeQI/AAAAAAAAAB4/2wNvkWeP22M/s1600-h/03.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5123154232189614338" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxkZoWszeQI/AAAAAAAAAB4/2wNvkWeP22M/s200/03.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; (parte I)&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fala com a voz límpida, um forte sotaque carioca e uma gentileza que, em outras circunstâncias, eu até teria apreciado:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Estamos com sua filha. Junte cem mil reais e espere por nossa ligação. Se você falar com a polícia, ela morre.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;align="justify"&gt;&lt;p align="justify"&gt;Desliga. Fico olhando para o celular, apatetado. A primeira coisa que me vem à cabeça quase me faz vomitar, e fecho os olhos de tanto ódio que sinto de mim mesmo naquele segundo: “pelo menos, não vou mais gastar dinheiro com brinquedos”. Existe algum canto muito perverso na minha cabeça para que eu pensasse nessa piada sórdida. Porém, tudo faz parte da insanidade daquele telefonema – a realidade deu uma pausa. Instantes depois, eu já esclarecia a vista, e a sucessão de coisas a fazer parecia definida. Não há tempo para ficar ruminando sobre os monstros que habitam na mente da gente.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Com um pulo, corro para a porta da frente, pegando a chave do carro e a carteira no caminho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Disparo com o carro pelas ruas que me levarão à escola. No caminho, agarro o celular com força, tentando acertar as teclas do número da diretora. Eu os sei de cor, mas a velocidade e o nervosismo tornam tudo mais difícil. Finalmente, jogo o celular para o banco traseiro; estou perto, afinal de contas. Penso em Márcia: aquela era a primeira semana que minha ex-esposa havia me deixado ficar com a Clarissa. Como eu posso dizer a Márcia que a haviam levado? Como conseguiria a confiança dela de volta?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Nada disso”. Seguro o volante com as duas mãos. “O problema principal está na sua frente, resolva-o antes de pensar em outros”. Essa foi uma das boas coisas de meu treinamento no Exército, a capacidade de isolar as variáveis e pensar em uma bronca de cada vez. E, neste momento, meu problema é conseguir Clarissa de volta, e não lidar com Márcia. Foco. Preciso de foco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Freio o carro, as rodas guincham. Saio, deixando a porta escancarada. Imagino encontrar jornalistas, carros de política e professores assustados na frente da escola, mas não há ninguém. Corro através do portão, sem sentir meu próprio fôlego. Alguém grita para que eu pare. Ignoro: o cenário à minha frente se movimenta como num sonho. Entro no prédio do maternal; um grupo de crianças olham para mim, petrificadas de susto. Pulo os degraus das escadas. A sala dela fica no sétimo andar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando chego lá, a fadiga em minhas perna começa a dar seus sinais. Ignoro: é estranho. Fora algumas crianças fazendo algazarra no corredor, não há sinal de polícia, nada. Penso, horrorizado, que talvez o seqüestrador a tenha raptado no caminho para casa. Mas mesmo isso não faz sentido, não a deixariam partir da escola desse jeito, não uma menina de cinco anos. Senão, eu pago essa mensalidade absurda de cara pra quê? Pra não poder deixar meus filhos no colégio com segurança, o mínimo que se precisa pra que a gente possa viver e trabalhar em paz? A culpa é desse governo, que não investe nada em segur...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lá vou eu, me dispersando de novo. Foco. Pense no treinamento. Eu sou um soldado. Eu farei o que for necessário para que as coisas fiquem bem novamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Chego na porta da sala de Clarissa. Viro a maçaneta e jogo a porta para trás. A professora e as quinze crianças param de falar e olham em silêncio para mim, um silêncio que me corta em dois. Instintivamente, meus olhos se dirigem para o fundo da sala, onde ela costuma ficar. Caio de joelhos lentamente. Escuto vozes, mas nada ouço; olho as crianças, mas não as vejo. Finalmente percebo meu fôlego curto e estrangulado quando vejo Clarissa sair do meio dos meninos e correr em minha direção, rindo seu sorriso banguela, os braços muito abertos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Horas depois, eu, Márcia e Clarissa saímos do circo que eu havia criado. Acomodamos-nos no carro – que, por um milagre, ainda estava com as portas escancaradas em frente à escola. Seguimos lentamente, quietos. Eu falara com a diretora, policiais, o porteiro: Clarissa não havia saído da sala de aula a manhã toda. Finalmente, percebi que havia sido vítima de uma daquelas simulações de seqüestro, em que o marginal liga de um telefone do interior do presídio e finge que raptou alguém de sua família. Um golpe corriqueiro hoje em dia, mas que já deixou desesperada (e mais pobre) gente mais sã do que eu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Márcia, ao meu lado, parecia mais aliviada do que irritada. Clarissa, alheia às preocupações, observava a rua. Tudo em paz novamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Na metade do trajeto de volta à casa, um celular toca. O meu. Na confusão, eu o havia esquecido no chão do carro. A mãozinha delicada de Clarissa o pega e estende para mim. Agradeço e, antes de atender, vejo o número da chamada: “privado”. A mesma mensagem da ligação anterior. Era o “seqüestrador”:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Alô? – falo, tentando segurar a raiva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Já juntou o dinheiro?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Você deu azar, meu querido. – vejo, com o rabo do olho, Márcia ouvindo atentamente a conversa. – Minha filha está aqui comigo. Se você ligar de novo pra mim ou pra minha família, vou te cortar em pedacinhos e fazer você comer. Capisce?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Não deveria ter dito isso com a menina no carro, mas preciso descarregar meu ódio de alguma forma.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A gentileza da voz do carioca some e ele começa a gaguejar. Estranho, ele já deveria ter desligado o telefone.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vo-vo-você está louco, cara. Tamos aqui com sua filha. Quer que ela morra?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vá se foder. – murmuro, e desligo. Márcia olha para mim. Não sei se foi a melhor reação, mas agora já era. Esses caras do golpe nunca ligam de novo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Meu celular toca. “Privado”. Penso se devo atender ou não. Atendo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vá se fo-der! – repito, mais feroz. Minha ex-esposa sussurra para que eu desligue. Mas já é tarde demais. Ouço vozes ao fundo – um soluço. Choro de criança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Você é doido, seu Eduardo. Estou com a faca na garganta da tua filha. Se continuar falando comigo assim, corto a cabeça dela fora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Paro o carro no acostamento, sob uma chuva de buzinas. Márcia está puxando meu braço, apavorada, pedindo que eu desligue imediatamente. Clarissa está de olhos arregalados e parece que vai desatar a chorar. Meu nome não é Eduardo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Meu nome não é Eduardo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Hã?! – pausa. O choro aumenta. – Esse não é o 9147-8716?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não. Esse não é meu número, e meu nome não é Eduardo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pausa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- AH! PUTA QUIU PARIU! – ouço tapas e o carioca gritando com alguém. Gritos de homem ao fundo. O choro continua. – Filho da puta!! Seu viado escroto burro filho da puta! – Mais tapas. - ... pegou o telefone errado, seu escroto burro! Burro!!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinto-me no meio de um episódio dos Trapalhões. Mas o humor é rapidamente substituído pela voz nervosa do Carioca:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Aí, meu chapa. Agora fudeu. Você tá metido nessa e vai ter que ir até o fim. Vai lá na... me passa o endereço, viado burro... vai na Rua Laranjeiras, 317. Fala com Eduardo Scherer, diz que estamos com a filha dele e que é pra esperar minha ligação. “Capixe”?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Isso não é problema meu. – respondi. – Não tenho nada com isso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Rua Laranjeiras, 317. Fala com Eduardo Scherer. E rápido. Essa aqui pode não ser tua filha, mas vai pro saco de você não se mexer. E a culpa vai ser tua. – desliga.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Olho para Márcia, que está quase aos prantos, sem entender nada. É sempre assim: quando você pensa que seu dia já está chegando ao fim, descobre que ele nem começou.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;(... continua!)&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-3325741095093498723?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/3325741095093498723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=3325741095093498723' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/3325741095093498723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/3325741095093498723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/e-foi-que-comearam-meus-problemas.html' title='... e foi aí que começaram meus problemas.'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxkZoWszeQI/AAAAAAAAAB4/2wNvkWeP22M/s72-c/03.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-2149637230154395346</id><published>2007-10-18T00:20:00.000-02:00</published><updated>2007-10-18T00:27:33.265-02:00</updated><title type='text'>tu vientre es una plaza soleada</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não sei se quero responder a essa pergunta. Mas vá lá, se eu não responder agora terei que fazê-lo outra hora, pois sempre haverá um gaiato esperando pra jogar isso em cima de mim:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;- Você não deveria se surpreender por todas as histórias possuírem algo sobre o amor no meio: todas as histórias falam de amor. Todas as que importam, ao menos. E, antes que comece a reclamar de minhas generalizações e dizer que relativizo tudo, peço que olhe para cá e escute um instante:&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;Qual é a história que você já ouviu ou leu que não versasse sobre o amor? Já leu um romance que não falasse dele? E o quê significa “romance”, por acaso, senão o cortejo, a atração? Desafio a você para que me aponte uma única narrativa que não contemple o amor feliz, o fracassado, o amor de uma filha por um pai, de um homem por uma idéia, de alguém por si mesmo. Vamos parar de pensar apenas no amor de um ser humano pelo outro, já tão repisado. Falo dos outros nomes que o amor possui, inclusive daquele que não ousa dizer seu nome. A obsessão é o amor por um pensamento; a vingança, por uma revanche. Por Deus. Pela Pátria. Por um desejo alucinado, por uma virgem descarnada, pela arte, pelo ofício, pela fantasia; tudo é sobre o amor.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;Não há livro, filme ou quadro que escape desse desígnio, não há mito que tenha sua origem fora dessa esfera. Não falo do amor sentimental, mas do arcaico, daquele que nos envolve e preenche, que nos impele, que nos ensina a sobreviver, daquele que nos força a contar nossas histórias. O amor me trouxe até aqui; e o amor me levará embora.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-2149637230154395346?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/2149637230154395346/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=2149637230154395346' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/2149637230154395346'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/2149637230154395346'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/tu-vientre-es-una-plaza-soleada.html' title='tu vientre es una plaza soleada'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-4907266740823371800</id><published>2007-10-15T19:45:00.000-02:00</published><updated>2007-10-15T19:57:42.747-02:00</updated><title type='text'>lucyenne quer ser batman</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxPhK2szePI/AAAAAAAAABw/kIKe_llsjwY/s1600-h/batman_begins.jpeg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5121684777848764658" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxPhK2szePI/AAAAAAAAABw/kIKe_llsjwY/s200/batman_begins.jpeg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;  &lt;div align="justify"&gt;Que as crianças se atraem por tudo o que é macabro e tenebroso, não é novidade. Nessa idade, o interesse pelas brincadeiras inocentes de casinha e carrinho andam lado a lado com a mania por decapitações, chacinas e crueldades dos filmes de terror e dos telejornais. Há um quê de proibido e asqueroso no cotidiano habitado por insetos e corpos putrefatos, monstros e fantasmas, que provocam menos repulsa que fascínio em meninos e meninas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lucyenne conheceu o macabro cedo e de forma mais terrível do que em simples histórias de fantasma. Aos nove anos, viu a mãe morrer em decorrência do câncer que a devorava há muito. O pai, já ausente e dado a sumiços prolongados, preferiu entregar menina nos braços da tia. Paciência, pensou. Havia um tesouro mais precioso na casa da tia do que a vida opaca que levara até então: a coleção de revistas em quadrinhos no armário do primo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ali, desde o momento em que terminava o dever da escola até a hora de dormir, ela se realizava com histórias violentas de crimes e assassinatos, anti-heróis sombrios de mundos onde a linha entre a loucura e a sanidade se mostrava fugidia. A menina vivia sob o signo da incerteza – não sabia o que queria fazer na vida, quando sairia da casa dos parentes ou como lidaria com sua maturidade precocemente adquirida -, e enxergava seus conflitos, de alguma forma, nos gibis. Gostava, sobretudo, das aventuras do Batman, o que lhe rendeu chistes maldosos no colégio:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Menina que lê Batman é sapatão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Ora, por quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Menina que pergunta muito também é sapatão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Risos. A tia também não apreciava o gosto da Lu, e sempre a chamava para lugares que toda menina, pensava, gostaria de ir: salões de beleza, chá de senhoras, o bingo. Lucyenne a acompanhava passivamente, mas, assim que chegava em casa, se trancava no quarto com o primo para ficarem a sós com as revistinhas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Lucas, o tal primo, obviamente não ficou indiferente a essa invasão surpresa. A princípio, tendo a mesma idade que ela, a enxotava do quarto toda vez que a via debruçada sobre a escrivaninha, lendo os gibis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo, passou a usar métodos mais perversos para expulsá-la:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Por quê você gosta do Batman?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Por que ele bate nos bandidos. – respondeu a menina, sem interromper a leitura. - Quando eu crescer, vou ser igual a ele.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Ruá, ruá, ruá. Você é louca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Por quê?!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Você é pobre e escurinha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- E daí?!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- O Batman é rico e branco. E é homem. Sua maluca.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois de jogar a bomba, Lucas saiu. A menina fechou a revista e pensou naquilo. O primo tinha razão, não havia dúvida. Bruce Wayne era tudo o que ela não era: grande, forte, podre de rico e, a ver pelos músculos, tinha boa saúde. Por outro lado, não aceitou que Batman fosse branco: ele era negro, possuía máscara e capa pretas. Ele ficava bonito, com o capuz e as luvas negras; ela também ficaria, quando chegasse a hora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lucyenne cresceu. A leitura dos gibis diminuiu, enquanto sua retidão e timidez prosseguiram. Ainda assim, Bruce Wayne guiava sua vida, de algum modo: ainda sonhava em ser rica, em trabalhar e tomar conta de si mesma. Estava louca para sair da casa da tia, que, quando percebeu que não conseguira transformar a sobrinha na filha prendada que sempre quis ter, não parava de atormentá-la com brigas e pequenas discussões. A fim de economizar dinheiro para alugar um apartamento, Lucyenne trabalhava à tarde numa loja do shopping e fazia cursinho à noite. Não sobrava muito tempo para o homem-morcego.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um dia, já com seus dezesseis anos, estudava na escrivaninha de Lucas. Os gibis do armário haviam ido para o lixo há anos, e ela só continuava a ir para o quarto dele porque era o único lugar da casa onde a luz era decente para ler. A escrivaninha também era confortável. Acabou cochilando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Acordou com uma mão gelada no ombro. Teve um sobressalto quando viu o primo diante de si, sorrindo. Ele murmurou algo, mas Lucyenne sentiu apenas o fôlego nauseante de álcool que exalava. Pediu desculpas por ter ocupado a mesa e já se levantava quando a mão dele apertou seu ombro e a forçou a ficar sentada. Ele aproximou a boca do rosto da menina – o bafo luminoso da cachaça, os olhos injetados e felizes – e pressionou seus lábios contra os dela. Mão gelada subindo pela blusa. Arrepio. Instintivamente, ela o empurrou e se jogou da cadeira, aterrissando sobre a porta e a abrindo com força.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Disparou para a sala, e daí para a rua, e daí para o mundo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Lucyenne caminhou até o janelão que se estendia de um lado a outro da imensa sala: sentiu o ar gelado que se insinuava pelas frestas, apreciou o cenário das árvores balançando contra o vento noturno, o silêncio e a quietude.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes que desviasse o olhar, porém, um raio de luz cortou o céu: a figura de um morcego deitou sobre as nuvens, pairando como uma sentença sobre o céu iluminado de Gotham City. Como em tantas outras vezes, a cidade precisava dela; e ela, por instinto, já corria para a passagem secreta que dava acesso à bat-caverna.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por último, a moça calçou as botas, erguendo o capuz que provocava tanto terror no coração dos criminosos de Gotham. Não havia tempo a perder. Pulou para dentro do Batmóvel, engatou o turbo e disparou rumo ao coração da cidade, desaparecendo com um estrondo em meio às árvores.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-4907266740823371800?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/4907266740823371800/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=4907266740823371800' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/4907266740823371800'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/4907266740823371800'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/lucyenne-quer-ser-batman.html' title='lucyenne quer ser batman'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RxPhK2szePI/AAAAAAAAABw/kIKe_llsjwY/s72-c/batman_begins.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-8368528080770448279</id><published>2007-10-15T00:41:00.000-02:00</published><updated>2007-10-15T00:51:03.575-02:00</updated><title type='text'>ontem e hoje</title><content type='html'>ontem,&lt;br /&gt;eu desejava que o dia nascesse&lt;br /&gt;e a noite caísse&lt;br /&gt;em rápido intervalo,&lt;br /&gt;que a sucessão das horas&lt;br /&gt;ocorresse instantaneamente,&lt;br /&gt;sem que os segundos parecessem minutos&lt;br /&gt;e os minutos, horas,&lt;br /&gt;triste que era a constituição de meu espírito&lt;br /&gt;e tédio o odioso tempo&lt;br /&gt;em que eu, solitário, fazia-me companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tudo isso antes de ver a luz de seus olhos&lt;br /&gt;e a leveza de sua alma.&lt;br /&gt;Você me contagia com um quê que nem você sabe&lt;br /&gt;o nome, sabia?&lt;br /&gt;Você me enfeita e ilumina,&lt;br /&gt;e todos os dias que passamos juntos&lt;br /&gt;parecem-me curtos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;hoje,&lt;br /&gt;desejo que o dia raie&lt;br /&gt;e a noite caia&lt;br /&gt;com uma imensidão de dias nesse ínterim,&lt;br /&gt;que os segundos, minutos e horas&lt;br /&gt;durem tanto quanto a eternidade,&lt;br /&gt;tanto quanto nosso amor perdure,&lt;br /&gt;benigno o efeito que sua matéria&lt;br /&gt;provoca em meu uníssono,&lt;br /&gt;e alvissareiro o milagroso momento&lt;br /&gt;em que nós, unidos, somos todos&lt;br /&gt;simultaneamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que a noite passe&lt;br /&gt;e o dia venha,&lt;br /&gt;pois já ficamos separados todos esses anos&lt;br /&gt;e é hora de recuperar o tempo perdido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-8368528080770448279?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/8368528080770448279/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=8368528080770448279' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/8368528080770448279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/8368528080770448279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/ontem-e-hoje.html' title='ontem e hoje'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-5133864652007002054</id><published>2007-10-12T12:08:00.000-02:00</published><updated>2007-10-12T12:32:15.708-02:00</updated><title type='text'>anunciação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/Rw-FNGszeOI/AAAAAAAAABo/fVJ3BuS2Vyg/s1600-h/freira.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5120457761526872290" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/Rw-FNGszeOI/AAAAAAAAABo/fVJ3BuS2Vyg/s200/freira.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Não sei porque, desde pequeno tenho medo desta música. Quando eu ouvia, nas rádios de Recife ou nas fitas cassetes velhas da casa de minha avó, me vinha um calafrio, talvez fosse a voz meio de profeta de Alceu Valença, ou algumas palavras soltas na letra, talvez você já tenha sentido isso. Recentemente, prestei atenção na música e percebi a razão de meu temor: eu pensava que os sinais de que a letra fala eram os indícios da chegada do diabo. Eu não acredito nestas coisas (sou mais um ateu, assustado demais para admitir a existência de Deus), mas, quando pensei nessa hipótese, tudo ficou mais claro. O tal que chega vai "brincar no meu quintal", chegar num "cavalo peito nu cabelo ao vento", já escuta os sinais, ser anunciado "nos sinos das catedrais", sei lá não parece coisa do céu. E essa "voz de um anjo" que "sussurrou no meu ouvido" tanto pode ser Gabriel quanto Lúcifer, que, antes de virar promotor na vara cível do Universo, era o anjo querido de Deus.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Da próxima vez que você for ouvir "Anunciação", pense nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"anunciação", alceu valença&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na bruma leve das paixões que vem de dentro&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tu vens chegando pra brincar no meu quintal&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;no teu cavalo peito nu cabelo ao vento&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E o sol quarando nossas roupas no varal&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;tu vens tu vens&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;eu já escuto os teus sinais&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A voz do anjo sussurou no meu ouvido&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;e eu não duvido já escuto os teus sinais&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;que tu virias numa manhã de domingo&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu te anuncio nos sinos das catedrais&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tu vens tu vens&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-5133864652007002054?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/5133864652007002054/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=5133864652007002054' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/5133864652007002054'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/5133864652007002054'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/anunciao.html' title='anunciação'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/Rw-FNGszeOI/AAAAAAAAABo/fVJ3BuS2Vyg/s72-c/freira.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-7520838685581088190</id><published>2007-10-12T11:57:00.000-02:00</published><updated>2007-10-12T12:01:31.835-02:00</updated><title type='text'>(17)</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Eu sou um monstro, uma besta. Perdi a capacidade de sentir, de demonstrar compaixão, coisas assim. Ódio e orgasmo nada mais significam: cuspo com indiferença a trajetória monótona dos dias.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Para quê, pergunto, tanto ruído, tanta choradeira...? Sinto meu sangue uns cinco graus mais frio... atingi a temperatura corporal de um crocodilo. Não espere de mim mais do que esperaria de um réptil. Não mais me encaixo na classificação dos seres vivos, na tabela periódica. Relações humanas, para mim, são pálidas distrações de um mundo que me rejeitou. Cultivo inimigos com a mesma intensidade com que dispenso amantes. Sou um lindo monstro.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Esqueço-me na varanda do apartamento, sem camisa, fumando um cigarro dez metros acima das buzinas e da fumaça da grande cidade. Vermes se arrastam no pavimento, suando seus problemas, carregando pastas e mudas de roupa. Nunca suo; a frigidez de minha pele, a minha esterilidade, impede infiltrações dos poros, não mais pertenço aos primatas.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Perto, reconheço uma jovem: há muito tempo, antes de minha metamorfose, ela me transmitia alguma paz, um traço de alívio. Hoje, causa-me náuseas. Me vê da rua: acena para mim, sorri. Eu poderia continuar o jogo, fingir que estou satisfeito por vê-la. Talvez, aí, tudo se tornasse mais fácil.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Mas não o faço. Permaneço imóvel, com o cheiro acre do cigarro levitando às narinas. Seu sorriso desaparece; sua mão descende. Sob meu olhar impassível, ela volta a caminhar, confusa, desorientada. Antes, dá uma última vista e tenta se convencer de que sou outra pessoa, um desconhecido.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Sou um monstro; uma besta. Os cães fogem ganindo quando me aproximo, atraio tempestades.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-7520838685581088190?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/7520838685581088190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=7520838685581088190' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/7520838685581088190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/7520838685581088190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/17.html' title='(17)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-6501421876570090730</id><published>2007-10-08T00:15:00.000-02:00</published><updated>2007-10-08T00:25:33.878-02:00</updated><title type='text'>o gato pardo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwmUnWszeMI/AAAAAAAAABY/TUe4WLWPZOQ/s1600-h/blackcat.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5118785855312591042" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 61px; CURSOR: hand; HEIGHT: 118px" height="140" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwmUnWszeMI/AAAAAAAAABY/TUe4WLWPZOQ/s200/blackcat.jpg" width="84" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:78%;"&gt;" Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais." (Edgar Allan Poe, "O gato preto")&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Uma única imagem perseguiu-me durante toda minha longa vida: eu, aos sete anos, chorando ao lado da janela e sendo repreendida por mamãe. Também me lembro de ver minha avó debruçada na janela, procurando alguma coisa.&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tal coisa, como bem sei hoje, era seu gato pardo. Em minha crueldade infantil e, provavelmente, devido ao ciúme pelas atenções de minha avó, eu havia apanhado a pequena criatura e a lançado pela janela de nosso apartamento. Naquele momento, mamãe deveria estar gritando algo sobre não jogar gatos pela janela, especialmente se eles pertencessem a membros de nossa família.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por décadas e décadas, essa fotografia mental me perturbou até o âmago de minha alma, fazendo-me retornar aos medos de menina no exato instante em que dela me recordava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O impacto dessa lembrança dos meus sete anos meio que desviou minha trajetória para uma determinada direção. Nos anos seguintes, tudo – ou quase tudo – parecia originar-se daqueles gritos tenebrosos de minha mãe. Minha sensibilidade aguçou-se, e passei a considerar cada vida frágil e preciosa. Por incrível que pareça, passei a gostar de animais, e tentei transmitir à minha filha, assim que nasceu, minha paixão fervorosa por todos os seres vivos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dessa forma, é possível imaginar meu assombro quando, ao chegar em casa, minha mãe contou-me que a menina, em seus tenros sete anos, havia jogado seu gato pardo pela janela. Furiosa, chacoalhei a menina e berrei, disparando as frustrações acumuladas ao longo do dia e da vida, buscando fazer com que ela apreendesse a importância que cada existência possuía na tessitura do universo. Ela rompeu em prantos, obviamente. Arrependi-me do escândalo logo depois, mas não voltei atrás. Minha mãe, desesperada, buscava no asfalto o gato que a acompanhara por quase toda a velhice.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, temi haver traumatizado minha filha. Tive ganas de ir até seu quarto, acordá-la e beijá-la e dizer-lhe que poderia arremessar pela janela quantos gatos pardos quisesse, que eu nunca mais gritaria com ela daquele modo. Mas não o fiz: receei que, caso afagasse sua cabeça naquele momento, ela nunca aprenderia a lição. Permaneci na cama.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Creio que o incidente acabou causando grande impacto em sua personalidade. Da noite para o dia, tornou-se mais amarga e rancorosa. Os anos se passaram sem que, aparentemente, a lembrança daquele dia enfraquecesse em sua memória. Fingia ser gentil com todas as pessoas e animais, mas eu, sua mãe e criadora, sabia que ela não possuía qualquer amor sincero por qualquer ser que se arrastasse sobre a Terra. Era como se meus gritos houvessem interrompido, em um momento crítico, o natural processo de formação de seu temperamento. Naquele dia, algo morrera nela.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, vivi calada meus anos em seu apartamento e tolerando seus gestos vazios e indiferentes. Quando ela me comprou um gato, em sua auto-propalada ânsia de mostrar-se caridosa com sua mãe e um gato ao mesmo tempo, permaneci muda. Até quando nasceu minha neta, nenhuma satisfação cresceu em mim: observava o rostinho da criança por horas a fio, vendo-a chorar sem nada fazer. Finalmente, dava-lhe o leite ou trocava as fraldas, indefesa diante das escolhas que a vida havia me legado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Diante da silenciosa e monótona derrota que minha filha havia me imposto, pude apenas praticar uma última vingança. Um dia, quando a neta já possuía lá seus sete anos, aproximei-me da janela com meu gato pardo. Por um largo tempo eu fingira que gostava do animal quando, na verdade, nada sentia além de asco por ele. Lembrava-me minha filha. Ela, tão fútil e cheia de si; tão vazia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Senti que minha vida não havia passado de um tortuoso círculo de enganos e falsidades. O caminho a seguir parecia mais claro. Assim, levantei o gato e o empurrei pela janela.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-6501421876570090730?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/6501421876570090730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=6501421876570090730' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/6501421876570090730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/6501421876570090730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/o-gato-pardo.html' title='o gato pardo'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwmUnWszeMI/AAAAAAAAABY/TUe4WLWPZOQ/s72-c/blackcat.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-2573251430995742412</id><published>2007-10-06T10:48:00.000-02:00</published><updated>2007-10-06T10:52:29.276-02:00</updated><title type='text'>(16)</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RweE52szeLI/AAAAAAAAABQ/7ISTEXZ2kdI/s1600-h/festa.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5118205631000705202" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RweE52szeLI/AAAAAAAAABQ/7ISTEXZ2kdI/s200/festa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; - Até.&lt;br /&gt;- Se cuida.&lt;br /&gt;- Que pena.&lt;br /&gt;- Então... é isso.&lt;br /&gt;- Entendi.&lt;br /&gt;- Era isso o que eu tinha pra dizer.&lt;br /&gt;- O quê mais?&lt;br /&gt;- Eu não funciono assim, não adianta.&lt;br /&gt;- Você nunca vai saber o quanto te quero se não parar de agir desse jeito.&lt;br /&gt;- Desculpa.&lt;br /&gt;- Posso falar?&lt;br /&gt;- Não dá.&lt;br /&gt;- Você nunca vai saber o...&lt;br /&gt;- Não te desejo dessa forma. Pode achar que é frescura, mas estar com você é muito mais.&lt;br /&gt;- Então porque a gente não trepa e pronto?&lt;br /&gt;- Sei que não.&lt;br /&gt;- Mas eu não sou um totem.&lt;br /&gt;- Talvez eu fique um pouco intimidado, sim.&lt;br /&gt;- Você tem medo de mim?&lt;br /&gt;- Tá.&lt;br /&gt;- Responde uma pergunta.&lt;br /&gt;- Também gosto de te ver.&lt;br /&gt;- Gosto de te ver na noite, com uma bebida na mão.&lt;br /&gt;- Andei meio recolhido.&lt;br /&gt;- Cadê você?&lt;br /&gt;- Pois é.&lt;br /&gt;- Tempão, hein?&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-2573251430995742412?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/2573251430995742412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=2573251430995742412' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/2573251430995742412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/2573251430995742412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/16.html' title='(16)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RweE52szeLI/AAAAAAAAABQ/7ISTEXZ2kdI/s72-c/festa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-3643481449936704433</id><published>2007-10-04T01:23:00.000-02:00</published><updated>2007-10-04T01:26:41.063-02:00</updated><title type='text'>o livro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Escrevi um romance pra você.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sim, pra você. É uma comédia; quer dizer, é uma comédia dramática. Fala sobre nosso tempo juntos e o que ocorreu depois. Pensando bem, não houve nada de muito engraçado nessa época, houve? Então, retiro o que disse: é um drama. Um grande épico dramático, com alguns toques de humor negro. Tive que colocar isso pra que não ficasse muito chato, afinal, por mais que disséssemos que nossa história fosse extraordinária, isso não é verdade. Nossa história foi exatamente igual às outras e, se o livro parece banal, é porque tentei ser o mais fiel possível aos acontecimentos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hesitei muito antes de escrevê-lo. Conversei com os amigos que temos em comum e empreendi muitas reflexões. Pensei até em dizer-lhe que estava escrevendo, mas mudei de idéia quando concluí que você faria de tudo para que nossa história não fosse registrada em lugar nenhum e caísse no esquecimento. Então mantive você no escuro e só agora, com o livro no prelo, tenho coragem de dizer que ele existe. Ele é dedicado a você e, caso veja isso com ternura ou preocupação, pouco importa. Ele virá, impacientemente como Bruce Lee.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O livro vai acabar sendo nosso filho. Vamos projetar nele todas as nossas raivas e frustrações, nossos medos. Vamos acabar odiando-o como nos odiamos depois que nossa história acabou. Acho que não vai vender. Não creio que o mundo precise de (ou queira) mais uma história de amor, de mais uma derrota. No final, pensamos que podemos nos redimir contando (ou vivendo, ou assistindo a) uma história de amor, da mesma forma que pensamos que podemos recomeçar tudo ao ter um filho. Aí, tudo são flores. Flores artificiais, mas flores. Não demora muito e a redenção evapora. O livro azeda, e o filho cai na rotina, vira vítima de nossos vícios ao invés de redentor deles. Em pouco tempo, o livro cai na mesmice, nas mesmas situações eternamente repetidas. Nossa história rendeu um épico dramático, mas isso também aconteceu com todas as outras histórias. Umas poucas viraram livros e filmes, outras tantas se esvaneceram tão logo os amantes se separaram, mas todas, nem que por um breve momento, adquiriram as dimensões de um épico banal. Também um filho, que por um instante parece o ser mais sublime da Terra, transforma-se com o tempo num índice de nossos erros e vícios. Rapidamente, ele procura ter seu próprio filho para o redimir dos infortúnios herdados, e você termina com filhos e netos de desilusões. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p&gt;Mas basta de filhos. Estou com um exemplar do livro na mão: gostaria de dá-lo a você. Qual é seu novo endereço? Vai me deixar entrar?&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-3643481449936704433?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/3643481449936704433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=3643481449936704433' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/3643481449936704433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/3643481449936704433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/o-livro.html' title='o livro'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-8106364966370874480</id><published>2007-10-03T10:43:00.000-02:00</published><updated>2007-10-04T01:29:12.699-02:00</updated><title type='text'>eu tenho tantas coisas</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwOPuGszeKI/AAAAAAAAAA8/w8mRYqrG88M/s1600-h/dente.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5117091623858305186" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwOPuGszeKI/AAAAAAAAAA8/w8mRYqrG88M/s200/dente.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Eu tenho tantas coisas,&lt;br /&gt;Tenho tudo o que quero. Mas isto não faz de mim um homem,&lt;br /&gt;comprar um carro não faz de mim um homem,&lt;br /&gt;não sou um homem porque moro numa casa própria.&lt;br /&gt;Tenho tudo o que quero, cada capricho,&lt;br /&gt;Mas isto só faz de mim mais um solitário,&lt;br /&gt;pois me ocupo apenas de minhas fantasias e ignoro as dos outros,&lt;br /&gt;deixo que o egoísmo tome conta,&lt;br /&gt;distribuo dinheiro e permaneço trancado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que não sou um homem porque não tenho você.&lt;br /&gt;Não tenho você. Sou mais um solitário,&lt;br /&gt;tenho tantas coisas. Mas não são elas&lt;br /&gt;que fazem de mim&lt;br /&gt;um homem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-8106364966370874480?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/8106364966370874480/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=8106364966370874480' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/8106364966370874480'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/8106364966370874480'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/10/eu-tenho-tantas-coisas.html' title='eu tenho tantas coisas'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RwOPuGszeKI/AAAAAAAAAA8/w8mRYqrG88M/s72-c/dente.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-7143629267550329905</id><published>2007-06-03T23:45:00.000-02:00</published><updated>2007-06-05T20:01:11.653-02:00</updated><title type='text'>pra quem roubou meu coração</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RmN1kOvoEvI/AAAAAAAAAAk/9WoQ3UfsFKQ/s1600-h/sensual.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5072026870642905842" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RmN1kOvoEvI/AAAAAAAAAAk/9WoQ3UfsFKQ/s320/sensual.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; ... tudo o que eu queria agora era estar com você, curtindo sua pele morena numa ansiedade louca, sentindo seu hálito e a curvatura do seu pescoço, com você descobrindo em mim ossos que nem eu sabia que existiam. Queria que esse ponto final nunca durasse, que a frase se prolongasse como agora prolongo a frase, que sua boca macia e ligeira destruísse minha boca, que eu a bebesse, que você me consumisse, eu queria ver que por um segundo você me provou e descobriu do que éramos feitos. Arrancamos as roupas de um e do outro porque achamos que botões e zíperes eram distrações dispensáveis para nossa sanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suas unhas afundaram em mim e temi que você quisesse me perfurar e habitar em minha pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admirei seu corpo negro por tanto tempo que alguém diria que não havia uma revolução lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você me comeu a alma antes que eu pudesse te dar um beijo e se nós fizemos com tanta força foi porque eu queria minha alma de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Te vasculhei inteira, sem nada encontrar. Cadê minha alma? E pare de revirar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gotas salgadas despencam do alto de rochedos e chegam ao teu ventre, que arqueja, projeta e contrai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manchas de consciência pulsam em minhas têmporas latejantes. Rasgos de realidade interpõem-se entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o momento mais lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo. A manhã mais fria. Junto os cacos e, tristemente, parto. Olho você, dormindo indiferente. Olho você, que ainda tem tantas canções pra cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio à rua e sento na esquina, esperando alguém. É domingo. Vai passar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-7143629267550329905?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/7143629267550329905/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=7143629267550329905' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/7143629267550329905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/7143629267550329905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/06/pra-quem-roubou-meu-corao.html' title='pra quem roubou meu coração'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_zSWFFUubTdY/RmN1kOvoEvI/AAAAAAAAAAk/9WoQ3UfsFKQ/s72-c/sensual.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-412488882948454899</id><published>2007-06-03T19:45:00.000-02:00</published><updated>2007-06-03T19:46:31.097-02:00</updated><title type='text'>(15)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A história de nossas vidas é a história de nossas frustrações sexuais. Nada simboliza melhor a condição de apatetamento que assola nosso caráter, nada demonstra com mais eficiência a sensação de impotência que rege nossa existência. De todos os embates que enfrentamos - a luta pela sobrevivência, pelo sucesso, pela transcendência -, este é o mais baixo, o alicerce mais fundamental do espírito. Vivemos no limite, sabendo que sempre poderíamos ter mais sexo, mais selvageria, em nosso dia-a-dia: e essa certeza, de que a vida poderia ser um evento memorável e não é, nos corrói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente é trágico pensar que a riqueza da essência humana se faz conduzir pela libido; mas pensei muito no assunto e não consigo chegar a outra conclusão. Talvez eu vá mudar de idéia no futuro, mas não creio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, não é possível separar as esferas da vida - a emocional, a social, a profissional e assim por diante - e achar que é possível ter "azar no trabalho e sorte no amor", ou relacionar-se bem com seus vizinhos quando sua vida em casa está uma merda. Todos os fatos vividos estão conectados, hierarquizados numa sucessão de sensações de amor, fraternidade, solidariedade, renúncia e angústia, regidas todas pela frustração a que me referia. A fonte da vida, o "animus", a alma de cada ato movido pela paixão que provocamos e sofremos, provém da libido e das frustrações que seu atrofiamento acarreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A libido é um fluido, um músculo, um órgão, um organismo que nos move e liberta, que fatalmente nos extermina, que nos impele ao abismo da felicidade. "O homem é estômago e sexo", disse Schopenhauer. Buscamos o tempo todo e de diversas maneiras romper essa ditadura da pele, trair a gramática do sexo, mas essa tentativa acaba nos tornando mais miseráveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor seria abraçar nossa herança animal, torná-la irmã da sociedade que levamos séculos para construir e desenvolver. Viver civilizadamente, em sociedade, não é mal, nos proporcionou o domínio sobre a natureza e os nossos instintos auto-destrutivos. O exagero da civilização, no entanto, nos levou à robotização e ao aprofundamento de nossas frustrações. Não seria muito mais interessante viver sob o paradoxo do homem e do animal, ao invés de entregar a alma ao homem para matar a besta interna?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A angústia de não conseguir conciliar os extremos da besta-fera e do autômato civilizado é o que torna nossas frustrações sexuais o motor de nossas vidas. Transformamo-nos em crianças no sentido emocional com capacidade para matar por qualquer motivo, e esse é o pior dos mundos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-412488882948454899?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/412488882948454899/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=412488882948454899' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/412488882948454899'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/412488882948454899'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/06/15.html' title='(15)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116769447920951970</id><published>2007-01-01T21:31:00.000-02:00</published><updated>2007-06-04T00:00:52.210-02:00</updated><title type='text'>paz</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Tudo vai bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Encosto na poltrona, apóio a cabeça, olho o teto, adormeço. Esqueço Saddam Hussein, a estagnação econômica e o aquecimento global por um instante. Concentro-me em meus pequenos dramas, minhas minúsculas tragédias que não reduzirão a assombrosa desigualdade de renda que existe nesse país, meu Deus! Penso apenas em meus erros e nas pessoas que deixei pra trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apesar de muitas bolas fora, tudo vai bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda te amo. Podemos ter gritado muito um com o outro nos últimos dias, e você ter saído de casa xingando minha masculinidade, mas te amo muito. Sei de cada coisa que você guarda na gaveta. Consigo diferenciar sua satisfação de seu sarcasmo. Te leio como a um poema de Octavio Paz, e sei que você também me ama ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apesar de sua partida e de todos os equívocos bestas do mundo, tudo vai bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tento pensar que a vida é maior do que você, e isso provavelmente é verdade. Sou, porém, muito comodista: detesto mudanças. Se te amo e te quero a meu lado, é porque já te conheço e já nos transmutamos em peças que se encaixam quase perfeitamente. Não quero trabalho, preocupações. Quero a certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Apesar de tudo, tudo vai bem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116769447920951970?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116769447920951970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116769447920951970' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116769447920951970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116769447920951970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2007/01/paz.html' title='paz'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116756456705361044</id><published>2006-12-31T09:27:00.000-02:00</published><updated>2006-12-31T09:35:50.110-02:00</updated><title type='text'>fim de ano (3)</title><content type='html'>Chega. Daqui em diante, pra cada mensagem de natal e ano-novo que eu receber vou afogar um cachorrinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116756456705361044?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116756456705361044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116756456705361044' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116756456705361044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116756456705361044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/fim-de-ano-3.html' title='fim de ano (3)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116744484365837291</id><published>2006-12-29T23:48:00.000-02:00</published><updated>2006-12-31T09:32:26.206-02:00</updated><title type='text'>traição</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;- Você está sujo aqui…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Opa! Obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela molhou o dedo nos lábios e esfregou meu colarinho. Acho que uma semana de encontros com ela não me dariam a intimidade instantânea daquele momento: rapidamente senti seu cheiro e seu suor, vi a forma alveolada dos dentes, a minúscula falha na orelha. Nunca tínhamos nos falado antes, mas eu já estava com um pouco de sua saliva em mim e o relógio marcava apenas oito e meia. Será que eu conseguia ver que as coisas não iriam parar por ali?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entabulamos. Era Cecília, fazia medicina e era muito amiga da namorada de meu irmão. Conversávamos sobre o Mauro quando minha namorada voltou do banheiro. Imediatamente, ela interpôs-se entre Cecília e eu, agarrou meu braço e me deu um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apagando o sorriso e sem outra palavra, Cecília meneou a cabeça em minha direção e partiu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A três quarteirões de onde moro existe um cineminha de arte. Todo o pessoal universitário, artistas e desocupados em geral vão lá assistir ao último filme independente americano ou a alguma porcaria francesa. Vou duas vezes por semana porque é barato e o ar-condicionado é forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas depois da festa, encontrei Cecília. Lembrei-me de que já a tinha visto no cinema algumas vezes. Estava acompanhada da namorada do Mauro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei com as duas, conversando animadamente. Ela adorava filmes, então eu menti e disse que também gostava, que eu lia tudo que me caía nas mãos sobre Bergman, Fellini, Kubrick, que eu gastava meu salário de estagiário no jornal todinho em aluguel de fitas. Ela perguntou de minha namorada (porque mulheres gostam de entrar nesses joguinhos?). Disse-lhe que ela não gostava desse tipo de filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando minha cunhada foi comprar pipoca, roubei o celular da mão de Cecília e digitei meu telefone. Disse que, quando quisesse falar sobre cinema, era só ligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só se for pra conversar sobre cinema mudo. – ela respondeu na bucha. Franzi a testa, pensei um pouquinho e ri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos na sala.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;* *&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Cecília chegou atrasada no café. Pediu desculpas e depois pediu mais desculpas por ter adiado tanto o encontro: sabe como é, provas, exames... disse que Mauro era médico e que eu a entenderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É, medicina é fogo. – respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pausa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sua namorada não vai se importar de estarmos aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra pausa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Provavelmente. Você quer ir embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, mas também não quero causar problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Problema nenhum. Não estamos fazendo nada de mais, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri, e ela sorriu de volta. Em frente ao café, alguns meninos corriam de skate, aproveitando os últimos raios da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quer dizer, se eu pegasse na sua mão, desse um beijo e começasse a falar coisas bonitas pra você, talvez isso fosse um pouco errado. Mas não estamos fazendo nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela concordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E ainda isso depende do ponto de vista. – arrematei. Sua mão segurando a xícara tremeu um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não quero causar problema. – murmurou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão lindo, o rosto. Face de mulher; traços fortes, delicados, um sorriso cheio, um corpo esperto. Ela podia estalar os dedos que eu ficaria ao seu lado pelo tempo que quisesse. Nós nos queríamos, e não havia nada de errado nisso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, ela desviava o olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos fazer o seguinte? – falei de repente. – Vamos ficar cinco minutos em silêncio. Cinco minutos. Depois, se a gente estiver mais relaxado, podemos conversar. Se não, vamos embora e ninguém fica magoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu nervosa. Olhou para mim como se eu fosse um bicho muito especial e assentiu com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calamo-nos. Ao redor da praça, os meninos corriam de skate pelo asfalto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116744484365837291?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116744484365837291/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116744484365837291' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116744484365837291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116744484365837291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/traio.html' title='traição'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116716483131882677</id><published>2006-12-26T18:18:00.000-02:00</published><updated>2006-12-26T18:27:11.333-02:00</updated><title type='text'>amigos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Permaneço sentado, atônito. O chão some sob meus pés, gotas frias começam a surgir na minha testa, posso sentir. O ruído das crianças gritando na praça de alimentação baixa, até sumir por completo. Diana e Tibúrcio continuam olhando para mim, ansiosos, talvez um pouco arrependidos do que acabaram de dizer. Imagino que tenha sido uma escolha difícil. Mais difícil, no entanto, será escolher as palavras que terei que pronunciar no momento seguinte.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Gosto dos dois. São bons amigos: ele fez parte da minha turma de faculdade, e ela começou a namorá-lo na minha festa de noivado (o meu finado noivado...), há três anos. Não há oportunidade em que nos encontremos para que eles não me encham de abraços e palavras afetuosas. Eu, em troca, ofereço-lhes os ingressos de cinema e os brindes que aparecem no meu trabalho. Saímos uma vez a cada dois, três meses, bebemos um vinho, papeamos sobre as dificuldades dos trinta anos. São legais. Quer dizer, não são meus amigos mais próximos, mas podemos nos chamar de “amigos” sem constrangimento algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era assim até dez segundos atrás. Agora, os dois passaram para a próxima fase de nosso relacionamento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Desculpe. – sussurra Tibúrcio, assim que vê minha hesitação. – Foi totalmente inconveniente, terrível...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Nós só pedimos porque confiamos muito em você, querido. – diz Diana, quase às lágrimas. É muito emotiva, sofre dos nervos. – Nem pense que nós dois somos uns pervertidos, Deus me livre de você pensar uma coisa dessas...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Esqueça tudo o que dissemos. – ele pede, em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sorrio murcho e abano a mão, como se para afastar o constrangimento. O diabo é que os dois são terrivelmente feios. Material de guinchar de medo. Sem sacanagem nenhuma, os dois são medonhos, e eu, mau amigo, consigo pensar apenas na cara coberta de espinhas do Tibúrcio, na pele oleosa e inchada da Diana, nos dentes enegrecidos dos dois, nos olhinhos minúsculos dele e em sua expressão apalermada, no hálito azedo dela e em seus braços peludos...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Pelo amor de Deus, fale alguma coisa. – ele suplica. Percebo que estive com os olhos arregalados e calado por quase um minuto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, são meus amigos. Não há nada de errado no que me pediram; ao contrário, denota um grau de confiança que eu mesmo não concedo a ninguém. Foi um pedido muito doce, sincero. Subitamente, sinto-me um palerma por não aquiescer. E porque não?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Claro que eu aceito. – falo de repente, uma oitava acima do normal. – Claro que sim. É uma honra.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O rosto dos dois se ilumina. Diana deixa escapar um suspiro, e sinto um odor azedo de ovos alcançar meu nariz. Esforço-me para permanecer sorrindo. Tiburcio quase dá um pulo:&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Que bom! Que bom, que bom! Você não vai se arrepender. Vai ser muito legal. – ele pega um papel do bolso e o coloca em minha mão. – Aqui está nosso endereço. Sexta à noite está bom pra você?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Está ótimo. – o sorriso congela em meu rosto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele aperta minha mão, profundamente agradecido. Depois, diz que eu provavelmente estou constrangido e que não querem incomodar-me mais. Eles se encarregarão de tudo. Sexta às oito da noite, então, tudo bem? Ótimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Um grande abraço. – diz, e se levanta com Diana.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes dos dois partirem, ela vira para mim e pisca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Amigos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116716483131882677?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116716483131882677/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116716483131882677' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116716483131882677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116716483131882677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/amigos.html' title='amigos'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116675171362069331</id><published>2006-12-21T23:29:00.001-02:00</published><updated>2006-12-21T23:59:31.080-02:00</updated><title type='text'>selvageria</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nunca hostilizei uma mulher bonita, mas a primeira vez existe pra isso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela se aproxima lentamente, medindo cada passo como uma atriz em sua grande performance. O copo em sua mão parece uma pluma, o vestido leve que envolve seu corpo parece uma pluma, ela parece uma pluma flutuando em meio às pessoas da festa, mas estou pouco me lixando. Talvez antes, antes de Clara ter me deixado, quando eu era bem-humorado e não bebia tanto, talvez aí eu encontrasse a vontade necessária para flertar com uma bela mulher. Mas antes, como alguém disse, já foi, e o que é agora não é nada bonito. Seu rosto, que antes me hipnotizaria com sua simetria, hoje é uma pelanca esperando para acontecer. As pernas grossas e torneadas para mim parecem os cambitos tortos de um goleiro. Cerro a cara e desvio o olhar quando ela chega perto da minha cadeira. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Oi. - sussurra, allego molto troppo. Voz grave, linda. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Grunho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Você não é o irmão do dono da casa? - ela pergunta, sentando na cadeira ao lado. Tenho vontade de suspendê-la e atirá-la de volta para os convidados. Ela parece gentil, o que aumenta minha indisposição. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Eu tenho esse suspeito privilégio. - murmuro, e ela ri. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Por quê "suspeito"? - respiro fundo, ainda sem olhar. Ignoro a pergunta, mas ela insiste:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Por quê “suspeito privilégio”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Porque, sendo o irmão do dono da casa, eu tenho que ficar ouvindo a conversinha fiada de cada uma que passa e senta do meu lado sem ser chamada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ela petrifica. O copo, que flutuava como uma pluma, escorrega pela mão até pousar na mesa. Seus olhos incrédulos se agarram aos meus, mudos: sua beleza e sensualidade a haviam poupado de ouvir qualquer desagrado durante toda a vida. Hoje, porém, ela descobriu que sua carinha de anjo não vale um tostão furado neste mundo de boçais. Creio que deveria me agradecer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- E fecha logo essa boca que você está com um puta de um bafo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116675171362069331?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116675171362069331/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116675171362069331' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116675171362069331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116675171362069331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/selvageria_21.html' title='selvageria'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116608952766990353</id><published>2006-12-14T07:44:00.000-02:00</published><updated>2006-12-14T07:45:27.676-02:00</updated><title type='text'>(2)</title><content type='html'>o problema em ser um ladrão com dupla personalidade é que você nunca sabe onde suas coisas estão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116608952766990353?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116608952766990353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116608952766990353' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116608952766990353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116608952766990353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/2.html' title='(2)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116588489242956215</id><published>2006-12-11T22:51:00.000-02:00</published><updated>2006-12-11T22:54:52.440-02:00</updated><title type='text'>partido</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;- Você está bem?!&lt;br /&gt;            - Hã? Oi...?&lt;br /&gt;            - Não, fique deitada. Eu já ia chamar a ambulância.&lt;br /&gt;            - Eu estou bem... Quem é você?&lt;br /&gt;            - Te encontrei largada no meio da rua! Desculpa ter te trazido pra cá, mas é que eu moro perto e fiquei com medo de te passarem por cima. Eu sei que não é pra mexer em vítima de acidente, mas não dava pra te deixar lá. Atropelaram você?&lt;br /&gt;            - Não sei.&lt;br /&gt;            - Fica deitada. Você está pálida!&lt;br /&gt;            - Estou bem.&lt;br /&gt;            - Tá sentindo dor?&lt;br /&gt;            - Não... não estou sentindo nada.&lt;br /&gt;            - Ai, caramba. Peraí, deixa eu ligar pra ambulância...&lt;br /&gt;            - Não estou sentindo nada.&lt;br /&gt;            - Alô? Pombas! Não era 193?&lt;br /&gt;            - Esqueça isso. Fica comigo.&lt;br /&gt;            - Mas eu tenho que chamar um médico! Eu chamaria minha namorada, mas ela tá viajando. Está um baita frio lá fora. Você tá com frio? Quer um cobertor?&lt;br /&gt;            - Não estou sentindo nada.&lt;br /&gt;            - Tá, tá, ok. Deixa eu dar uma olhada em você... tá doendo? Aqui?&lt;br /&gt;            - Não.&lt;br /&gt;            - Parece que você não quebrou nada. Mas seu braço está branco! Seu rosto também!&lt;br /&gt;            - Calma. Não gosto de gente gritando.&lt;br /&gt;            - Dá pra ver as veias no seu braço, olha só!&lt;br /&gt;            - Senta.&lt;br /&gt;            - Ok, ok, fica calma... cacete, ninguém atende!&lt;br /&gt;            - Você tem um rosto bonito.&lt;br /&gt;            - ´Brigado. Você também. PORRA! Caiu a ligação de novo!&lt;br /&gt;            - Pega no meu pulso, por favor.&lt;br /&gt;            - Tá. PUTZ, seu braço tá gelado!&lt;br /&gt;            - Você sente minha pulsação?&lt;br /&gt;            - Peraí... não. Não estou sentindo, não! Ai, caramba...&lt;br /&gt;            - Pega aqui no meu peito. Sente meu coração.&lt;br /&gt;            - Opa, licença. Tá frio.&lt;br /&gt;            - Sente algo? Encosta o ouvido.&lt;br /&gt;            - Hmmm...&lt;br /&gt;            - E?&lt;br /&gt;            - Não estou sentindo nada.&lt;br /&gt;            - Está vendo? Minha mão está ficando roxa, escurecendo. Não sinto dor, nem frio, nem nada. Não consigo pensar em mais nada além do que estou vendo.&lt;br /&gt;            - Fica calma.&lt;br /&gt;            - Estou calmíssima. A lâmpada da sua sala está muito forte pra mim; acho que isso significa que minhas pupilas não estão mais contraindo. Vê? As unhas já estão pretas. Minhas pernas estão começando a endurecer.&lt;br /&gt;            - Eu vou pegar um copo d´água pra você, ok?&lt;br /&gt;            - Não. Fica comigo. Por favor.&lt;br /&gt;            - Espera, eu já volto!&lt;br /&gt;            - Meu corpo está ficando inchado; antes, ele abria os poros quando precisava expelir água. Mas os poros não abrem mais, e a água fica acumulada no corpo.&lt;br /&gt;            - Estou chegando!&lt;br /&gt;            - Eu pedi pra você ficar, mas você não quis.&lt;br /&gt;            - Pelo amor de Deus, estou trazendo a água!&lt;br /&gt;            - Porque você não ficou...?&lt;br /&gt;            - Cheguei!&lt;br /&gt;            Mas, quando ele chegou, ela já havia partido.&lt;br /&gt;            &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116588489242956215?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116588489242956215/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116588489242956215' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116588489242956215'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116588489242956215'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/partido.html' title='partido'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116580336204710192</id><published>2006-12-11T00:06:00.000-02:00</published><updated>2006-12-11T00:16:02.056-02:00</updated><title type='text'>desenganar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Depois de dois meses juntos, tudo o que fazem agora é ficar cada um em sua própria casa. Ele a proibiu de vê-lo; ela está assustada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante longas horas, todos os dias, ele rejeita seus telefonemas, suas tentativas de contato. Está ocupado demais construindo uma imagem dela, que, jura, permanecerá nos anais da literatura lírica por tempo infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela está puta, porque se recusa a transformar-se num totem. Deseja apenas amá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, ele se recusa novamente a vê-la. Prefere pensar que está morta: tanto melhor para o poema que tenta escrever, no qual compara o rosto de cadáver que ela ostenta com a alvura das colunas da Acrópole. Deseja torná-la o arquétipo do amor perdido, da paixão irrefreável e absoluta que leu em tantos poemas e que viu em tantos filmes do cinema mudo, que viu expressa nas telas dos mestres e nas esculturas clássicas. Não namora mais uma garota, mas uma idéia, ainda que essa idéia esteja batendo em sua porta nesse exato minuto e tentando chamá-lo de volta à razão abandonando essas intenções estúpidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impávido, ele tampa os ouvidos e busca visualizar sua amada imortal, falecida sobre a tumba de Lenora; morta, morta, morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela esmurra a porta e castiga a campainha:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu estou aqui, idiota! E não num livro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele agarra o abridor de cartas e aproxima-se da porta trancada, ansioso para dar vazão a sua verve poética. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116580336204710192?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116580336204710192/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116580336204710192' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116580336204710192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116580336204710192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/desenganar.html' title='desenganar'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116553859907809481</id><published>2006-12-07T22:40:00.000-02:00</published><updated>2006-12-07T22:43:19.086-02:00</updated><title type='text'>(1)</title><content type='html'>Às vezes sonho&lt;br /&gt;com brutal intensidade&lt;br /&gt;em ser outro que não eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo-me em outras vestes,&lt;br /&gt;um novo corpo,&lt;br /&gt;um novo rosto,&lt;br /&gt;fazendo coisas desprezíveis e&lt;br /&gt;comendo mulheres que nunca vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desperto desses sonhos, imagino&lt;br /&gt;se sou eu naquele momento&lt;br /&gt;ou o outro sonhando de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada dia, durmo mais uma hora,&lt;br /&gt;a cada hora, sou menos de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temo o dia&lt;br /&gt;em que o outro&lt;br /&gt;não constituir mais sonho&lt;br /&gt;e nem lembrança eu for.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116553859907809481?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116553859907809481/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116553859907809481' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116553859907809481'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116553859907809481'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/1.html' title='(1)'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116545199941146622</id><published>2006-12-06T22:15:00.000-02:00</published><updated>2006-12-06T22:39:59.420-02:00</updated><title type='text'>maldito rio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;            Estou eu tranquilamente em casa lendo o JB quando chega meu filho da escola esbaforido e eu pergunto se ele correu o caminho todo, ele responde que sim, manhê, e eu reclamo que não pode, que não dá pra ficar correndo no meio dos carros, o trânsito do Rio está uma loucura e alguém podia ter batido em você, promete que vai esperar o ônibus ou voltar andando, ele concorda com a cabeça, tomando fôlego e diz que estava correndo porque tinha pego algo no terreno baldio em frente à escola e ficou com medo que alguém tivesse visto ele pegar, eu começo a ficar preocupada porque um dia ele queria pegar uma camisinha que estava largada na calçada e eu dei um tapa na mão dele, é a idade perigosa em que eles estão mais curiosos, minha mãe me disse, deus me livre que ele tenha trazido uma camisinha usada pra dentro de casa, ou pior, um cigarro de maconha que pegou no chão, então eu tento me acalmar e digo com jeitinho que não pode ficar pegando as coisas do chão porque é sujo e barata passa por cima, ele responder que não estava sujo e que parece um brinquedo e pede pra ficar com ele, eu me preparo pra bomba e peço pra ele me mostrar, ele abre a mochila, remexe lá dentro e tira algo oval, cinza, diz que é pesado e pergunta de novo se pode ficar com ele, parece uma pinha de metal com uma argola em cima, ele testa o peso com a mão e balança a pinha pra lá e pra cá, eu fico paralisada e ele fica me pedindo manhoso pra ficar com o negócio, tenho vontade de saltar do sofá e gritar o mais alto que posso, mas me controlo e gaguejo que não, que é perigoso mas se ele me desse eu compraria um playstation e todos os cartuchos que você quiser, ele pára por um instante, os olhos brilhando e pergunta se estou falando sério, eu digo que sim e que é só botar o brinquedo devagar na mão da mamãe, meu filho, eu compro sim, ele hesita um momento e pousa a pinha na minha mão e vai para o quarto pulando de alegria. É só aí que respiro fundo e solto um grito de estremecer as vidraças.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;br&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Maldito Rio.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116545199941146622?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116545199941146622/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116545199941146622' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116545199941146622'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116545199941146622'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/maldito-rio.html' title='maldito rio'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116537459727385147</id><published>2006-12-06T01:04:00.000-02:00</published><updated>2006-12-06T01:09:57.283-02:00</updated><title type='text'>barreiras</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;No final do século XIX, alguns bordéis parisienses mais chiques ofereciam gansos e marrecos a seus clientes mais assíduos. Contava-se que, no exato momento do gozo do usuário, cortar o pescoço da ave proporcionava a contração de sua musculatura anal e uma sensação indescritível de prazer para o cliente.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Relatos de iniciação sexual com cabras e bananeiras não são incomuns nos rincões do País. Alguns dizem que mesmo nas metrópoles o costume ancestral continua.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Cansei de ver gente tratando árvores e plantinhas domésticas com mais afeto e intimidade do que com os próprios familiares. A atenção que os solitários dedicam às suas samambaias ou à mangueira da esquina, abraçando-as, afagando-as o caule e as folhas de maneira quase voluptuosa, não representa nada menos do que um ato de entrega absoluta.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;Como se vê, nem mesmo a barreira entre reinos pode impedir a materialização de uma verdadeira paixão. Impressionamo-nos com as mudanças que ocorrem no interior da espécie humana, como a união entre pessoas do mesmo sexo e o gradual reconhecimento da mulher como centro de uma relação estável, quando, na verdade, o advento de tais mudanças já podia ser previsto como passos na evolução da sexualidade desde a Antiguidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior fronteira a ultrapassar, a que encerra o futuro do &lt;em&gt;sapiens&lt;/em&gt;, está em vencer o preconceito que envolve a questão do amor inter-Reinos. Deixemos por um momento o que já está sendo discutido por pessoas melhores do que nós e meditemos um pouco sobre esse conceito revolucionário de amor e comunhão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles L., 45, por exemplo, é um caso raro que prenuncia uma nova era para as relações sociais. Morador de Nazaré da Mata, cidade do interior de Pernambuco, Charles apaixonou-se há três anos por um conjunto de &lt;em&gt;Agaricus bisporus&lt;/em&gt; – fungo comestível do filo Basidiomycota vulgarmente conhecido como “champignon”, utilizado no preparo de saladas e massas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almas menos elevadas sorririam diante do relacionamento entre um homem e um fungo, mas eu tento analisar o caso sob outro prisma. Charles encontrou o grupo de &lt;em&gt;A. bisporus&lt;/em&gt; no sítio de um amigo e, desde então, passa todo o tempo livre de que dispõe em sua companhia. O dono do sítio já tentou expulsá-lo, sem sucesso: a cada investida, Charles apenas abandonava o local para voltar na calada da noite. Ameaças de acabar com os champignons foram respondidas pelo amante com desespero e súplicas. Não vendo outro problema fora a desconfiança e os risos do povo de Nazaré, o amigo resolveu deixar Charles cultivar sua paixão proibida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos espera? Milhões de pessoas vivem amores secretos com cogumelos, bolores e leveduras, reprimidos pela incompreensão dos que pensam que o amor é reservado somente para o &lt;em&gt;Homo sapiens&lt;/em&gt;, que nem sabe o que fazer com ele. Outros escondem seu afeto por protozoários e outros organismos unicelulares, à espera de dias melhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reconhecer o amor inter-Reinos será a maior prova de tolerância que o &lt;em&gt;sapiens&lt;/em&gt; pode legar à sua espécie. Duvidar disso é colocar em xeque a própria existência do amor ilimitado e irresoluto que deveria existir entre todos os seres vivos, sejam homens, mulheres e fungos. Quando se vê Charles L. com seus champignons, têm-se um pequeno vislumbre do que significa essa promessa. Olhem para ele...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116537459727385147?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116537459727385147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116537459727385147' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116537459727385147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116537459727385147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/barreiras.html' title='barreiras'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116528453770628660</id><published>2006-12-05T00:04:00.000-02:00</published><updated>2006-12-05T00:26:29.720-02:00</updated><title type='text'>nós</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/1600/742325/gravata.gif"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/200/72997/gravata.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Meu pai ensinou-me a dar um nó de gravata quando eu tinha dezoito anos. É o mesmo que uso até hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem vários tipos: o simples, o clássico, o windsor, o meio-windsor. O de meu pai é um simples. Ele nunca me ensinou a fazer outro tipo, mas, também, eu nunca precisei. O simples é rápido e fácil de fazer, e também acho que papai não sabia fazer outro. Creio que ele se contentava com esse; imagino que, quando ele tinha dezoito anos e havia acordado na manhã do primeiro dia de seu primeiro emprego, meu avô deve ter ensinado o nó simples a ele. Com o tempo, a tradição ficou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não sei se quero aprender outro nó: gosto desse. Sei que há muito mais nele do que apenas o trançar e puxar de uma gravata. Penso em meu avô e no tempo em que todo homem tinha que usar gravata até para ir na esquina comprar pão. Esse nó deve ter servido muito bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Penso em quanto tempo foi necessário e quantas gravatas passaram pelos pescoços de minha família para que eu estivesse hoje dando esse nó. Ele não é perfeito, longe disso: sempre que o aperto, penso que estou apertando minha própria coleira de vícios herdados no sangue. Às vezes, cogito aprender outro nó e quebrar a ditadura hereditária para que meu filho não carregue os mesmo traços que tantas vezes me parecem tão antiquados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas, quando ainda estou ruminando o assunto, vejo que já enlacei a gravata ao redor do pescoço da maneira habitual. Dou uma olhada no espelho e acabo chegando à conclusão que realmente não há nada de errado com o nó.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com suas falhas, é um bom nó, que já serviu a meu pai, meu avô e o pai dele, e que me deixa orgulhoso de tê-lo aprendido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não há nada de errado com o nó, mas talvez haja algo de errado comigo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116528453770628660?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116528453770628660/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116528453770628660' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116528453770628660'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116528453770628660'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/ns.html' title='nós'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116520298022669821</id><published>2006-12-04T01:15:00.000-02:00</published><updated>2006-12-04T01:43:56.146-02:00</updated><title type='text'>todos aqueles pequenos suicídios</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/1600/267886/nuclear.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/320/514651/nuclear.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Viver com Tatiana era cometer pequenos suicídios diariamente, três vezes ao dia, durante muitos dias. Nunca vinha aquela morte verdadeiramente fatal, de deixar estirado no chão, livre do fardo da vida e do bafo da Tati. A dor atacava em pequenas doses, que aleijavam mas não tinham força suficiente para deitar-me à terra, coisa que eu desejava quando se tratava de Tatiana, algo que sempre desejei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito tempo tenho descrito meus relacionamentos como instáveis, doentios, construídos sobre jogos de palavras, falsidades e traições. Cheguei a afirmar, inclusive, que o amor não passava de um mal disfarçado desejo de auto-flagelação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todavia, descobri com Tatiana que também existem namoros verdadeiros, permeados por um amor doce. Têm que existir: afinal de contas, a dor e o sofrimento lancinante que passei ao seu lado só podem apontar para o outro extremo. Apenas assim a redenção do mundo pode acontecer, e há tanta coisa que Tatiana deve redimir. Minhas expectativas, por exemplo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha fé em Deus e na anarquia quase absoluta das emoções humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha crença no sistema republicano e na eleição de representantes para governar em nome do povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha lealdade aos amigos e aos princípios que aprendi na faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas lembranças de outros namoros e outras mulheres. De tão vil, Tatiana corrompeu as memórias de meus primeiros namoricos inocentes, transformando-os em episódios sórdidos de uma adolescência reprimida e pederasta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma que a existência do mal extremo denota um bem maior a fim de manter o equilíbrio do universo, a ocorrência de Tati demonstra que alguém com um amor profundo por todos os seres vivos habita o outro pólo do globo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que ela represente o pior do que a humanidade pode oferecer, longe disso. Reconheço que eu mesmo fui o culpado de muitas das situações tensas que vivemos. Digo apenas que, caso Deus tenha criado Tatiana, Ele tem muitas explicações a dar.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116520298022669821?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116520298022669821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116520298022669821' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116520298022669821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116520298022669821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/todos-aqueles-pequenos-suicdios.html' title='todos aqueles pequenos suicídios'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116502842495611158</id><published>2006-12-02T00:54:00.000-02:00</published><updated>2006-12-02T01:00:24.966-02:00</updated><title type='text'>alta madrugada</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Alta madrugada. Após duas voltas no quarteirão, o motorista encontra o número procurado e pára. Perto da portaria, dois vultos caminham apressadamente para a rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vozes abafadas de um casal. Sussurros: alguma coisa sobre o adiantado da hora, e um pedido para que ela durma no apartamento. Um suspiro. Mais sussurros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista já se fez ver pelo casal e a mulher, agora, dirige-se para o táxi. O homem a acompanha até a porta. Suspiros, sussurros e soluços. Encobrindo o rosto com um lenço, ela abre a porta de trás e se atira no banco, como se pudesse desaparecer no estofado. Fecha a porta. O homem, permanecendo no meio-fio, observa enquanto o táxi desloca-se lentamente até a esquina, e, daí, ganha o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do silêncio do motorista, ela murmura o nome de uma rua do outro lado da cidade. Curvando a cabeça, o condutor engata a quinta e dispara pelas avenidas do centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muito deixou de perceber os edifícios, as cenas de acidente que encontra pelo caminho, os mendigos e os travestis. O que pareceria novidade para um jovem desabituado com a noite lhe é indiferente, comum à sua cidade, a todas as cidades onde já trabalhou; era velho, trabalhara bastante em todo lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não importa, para ele, as revoluções que tomam lugar no exterior, mas as que ocorrem dentro do carro naquele momento. A mulher, após afastar-se do prédio, começa a chorar compulsivamente. O farol de um carro vindo na direção contrária desvenda-lhe o rosto moreno, belo, com alguns vincos de idade prematura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez também tivesse viajado muito e conhecido muitas cidades. Talvez – e o pensamento demorou na cabeça do motorista – também tivesse sofrido na mão de outros. Talvez os dois não fossem tão diferentes quanto a distância entre eles no carro parecia demonstrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua cabeça começa a flutuar para longe dos cruzamentos e dos semáforos; viaja pelo tempo, agora. Vê a primeira esposa na cozinha preparando o café, e os contornos de seu corpo lhe parecem assustadoramente iguais aos da mulher do rosto moreno. Repetindo seus gestos de anos passados, aproxima-se da esposa e mete-lhe um susto que a faz gritar e soltar a xícara. Ri. Ela permanece de costas, enquanto ele lhe acaricia a nuca com os lábios, envolve-a nos braços, levantando a saia lentamente. Ela ri ainda mais. É cedo. Beijam-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase tarde demais, o motorista escuta os gritos da mulher e vira o volante na direção contrária à dos faróis e ao som das buzinas. Seu pé castiga o freio e o carro dança no asfalto, os pneus gritando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundos depois, o táxi está atravessado na avenida deserta, intacto. Os dois ocupantes respiram pesadamente, sem falar nada. O caminhão invadira a faixa do motorista: não havia sido culpa sua. A mulher o sabe e permanece calada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Automaticamente, ele emite um tímido pedido de desculpas, engata a primeira e segue a rua. A sensação de ter compartilhado aquela quase-morte com uma bela mulher o enche de orgulho, quase como se tivessem feito amor no banco traseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao endereço indicado, ele encosta o táxi diante do prédio. Ela pergunta com doçura, já passado o surto de choro e o susto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanto é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motorista, num gesto ensaiado, encosta o braço no assento do passageiro e gira o pescoço apenas o suficiente para que seus olhos manchados de velhice encostem nas jóias castanhas que o fitam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é nada não, dona. Boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela franze a testa, mas só por um momento. Seus lábios apertados afrouxam-se num sorriso triste; balança a cabeça e, abrindo a porta lentamente, deixa que o motorista veja suas pernas delgadas se esparramando pelo banco até os pés se apoiarem na calçada. Seu peso, mais leve que uma gota de chuva, abandona o carro. Ela bate a porta e encaminha-se para a portaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a moça entra, o taxista dá a primeira e parte lentamente. Vai para casa, sorrindo. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116502842495611158?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116502842495611158/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116502842495611158' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116502842495611158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116502842495611158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/12/alta-madrugada.html' title='alta madrugada'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116476586309998526</id><published>2006-11-28T23:05:00.000-02:00</published><updated>2006-11-29T00:19:35.163-02:00</updated><title type='text'>o brasil na primeira guerra mundial</title><content type='html'>(do diário de Laurindo de Souza, primeiro-tenente do cruzador "Bahia" na Grande Guerra de 1914.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15 de outubro de 1918&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os fatos de ontem ainda me colocam de cabelo em pé; creio que metade de minha cabeça está branca a essa hora. Fatos aterradores, os mais atrozes que já vi desde que essa maldita guerra começou, desenrolaram-se diante de meus olhos, como num desses contos de Poe que enche de calafrios o coração...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moral da tripulação, como eu já havia ressaltado, está em pandarecos. Desde o 20 de junho, quando zarpamos de Fernando de Noronha, a flotilha esperava travar combate aos submarinos alemães que infestam o Atlântico. A princípio, nossos corações possuíam o brio de se bater contra o odioso &lt;em&gt;Kaiser&lt;/em&gt; em defesa da paz mundial e de nossa pátria. Eu mesmo havia festejado quando fui nomeado para a tripulação do "Bahia", parte da DNOG (Divisão Naval em Operações de Guerra). O fato de que o valoroso Almirante Frontin está no comando da frota apenas nos enchia de vontade de encontrar logo o inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coisa toda começou a degringolar em agosto: enquanto patrulhávamos a costa africana, baseados em Dacar, fomos assaltados por um surto fulminante de gripe espanhola. 176 patrícios nossos fecharam os olhos para nunca mais abrirem; eu mesmo perdi meus amigos de carteado, o Pinduca, o Bolão... negócio muito triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais triste o fato de que ainda não encontramos nem uma sucata alemã; ocorreu um incidente em julho, quando o tender Belmonte foi supostamente atacado por um submarino, mas após nosso contra-ataque não encontramos nem sinal dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A espera pelo combate nos colocava de prontidão durante 24 horas. Cansávamos de lutar contra a gripe, o tédio, a ansiedade; a tensão ameaçava comer-nos vivos. Até que ontem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grumete Saldanha foi o primeiro a ver o rastro no mar. Uma massa escura, de reduzidas proporções, rondava o "Bahia". Excitado, o rapaz correu para a ponte de comando e deu o alarma. Logo, todos nós estávamos no deque, acompanhando com os olhos o rastro escuro de espuma que rodeava a frota, sumia e logo reaparecia. Sua forma e velocidade só poderia significar uma coisa: o periscópio de um submarino! Tínhamos encontrado nossa presa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O capitão do "Bahia" não esperou que o rapaz das comunicações transmitisse a novidade para o Almirante Frontin, que estava visitando outro navio. Aproveitando que os canhões estavam de prontidão, mandou que atirassem na direção do rastro imediatamente. Logo, o cruzador pulsava com os estrondos dos canhões; o mar transformou-se numa massa de espuma dançante. Animado, o cruzador "Rio Grande do Sul" também passou a perseguir o rastro com a fúria das armas. O rastro desapareceu diante de nós; no mar, apenas eram visíveis as torrentes de água e espuma que se projetavam metros de altura, para cair sobre nós como uma ducha morna de chumbo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Após cinco minutos que pareceram uma eternidade, a salva cessou. Pouco a pouco, a quietude do oceano retornou para nossos pobres ouvidos, restando do ataque apenas um zumbido. Seguramos a respiração e ficamos com os olhos grudados no último ponto onde o rastro havia sido visto, esperando que os destroços do submarino alemão, a primeira vitória da grandiosa frota brasileira, emergissem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco depois, um objeto escuro e reluzente surgiu das profundezas e passou a flutuar nas ondas. Outro veio logo a acompanhá-lo. E outro; mais outro. Urramos de felicidade no deque, como se tivéssemos vencido a guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, no entanto, fomos percebendo a terrível realidade. Outros pedaços reluzentes vieram se juntar aos que flutuavam, que já formavam uma dúzia. O navio aproximou-se dos "destroços", e pudemos ver que não eram feitos de metal ou qualquer outro material produzido pelo homem. Pareciam - e eram, verdadeiramente - animais; toninhas, mais especificamente. Pedaços de golfinho coalhavam o mar ao redor da frota, e a tripulação observava os pobres cetáceos em silêncio, mesmerizada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consegui dormir ontem, e não creio que o conseguirei nos dias que virão. Estou pensando em desertar no momento em que pisarmos em Gibraltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;================================================&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(este diário é baseado em fatos reais)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116476586309998526?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116476586309998526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116476586309998526' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116476586309998526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116476586309998526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/o-brasil-na-primeira-guerra-mundial.html' title='o brasil na primeira guerra mundial'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116467903259319900</id><published>2006-11-27T23:54:00.000-02:00</published><updated>2006-11-27T23:57:12.603-02:00</updated><title type='text'>ressaca</title><content type='html'>Acordei numa cama estranha&lt;br /&gt;ao lado de uma moça desconhecida.&lt;br /&gt;Ela despertou, olhou pra mim&lt;br /&gt;e começou a gritar por sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caí no chão em cima&lt;br /&gt;de uma garrafa vazia.&lt;br /&gt;Saí correndo com os cacos na barriga,&lt;br /&gt;com a moça atirando um abajur,&lt;br /&gt;com um cachorro que queria morder meu saco,&lt;br /&gt;com um cara que saiu do quarto ao lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí do apartamento de cuecas,&lt;br /&gt;pulei doze lances de escada,&lt;br /&gt;quando dei por mim, estava na calçada&lt;br /&gt;numa rua que nem sabia o nome.&lt;br /&gt;Dei o pinote quando vi o cachorro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi marcas de batom no meu pescoço,&lt;br /&gt;ouvi um apito e um guarda veio em meu encalço,&lt;br /&gt;uma velhinha deu com a bolsa no meu baço,&lt;br /&gt;o sinal abriu e um carro me deu um abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com o cachorro no meu saco,&lt;br /&gt;com o cara me socando,&lt;br /&gt;com o policial me chutando,&lt;br /&gt;com a moça me mordendo,&lt;br /&gt;com a velha me bolsando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu prometo&lt;br /&gt;que é a última vez&lt;br /&gt;que&lt;br /&gt;eu&lt;br /&gt;be&lt;br /&gt;bo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116467903259319900?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116467903259319900/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116467903259319900' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116467903259319900'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116467903259319900'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/ressaca.html' title='ressaca'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116466830409794898</id><published>2006-11-27T20:53:00.000-02:00</published><updated>2006-11-27T20:58:24.106-02:00</updated><title type='text'>piratas do tietê</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/1600/912387/piratas.gif"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/400/9371/piratas.png" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Daria até pra viver sem ler Laerte, mas não teria a menor graça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116466830409794898?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116466830409794898/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116466830409794898' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116466830409794898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116466830409794898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/piratas-do-tiet.html' title='piratas do tietê'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116451142806690111</id><published>2006-11-26T01:11:00.000-02:00</published><updated>2006-11-26T01:23:48.080-02:00</updated><title type='text'>sono</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/200/573610/sonorazao.jpg" border="0" /&gt;O Jorge é uma graça. Aliás; graça, não. Palavra cretina, brega. Eu gosto do Jorge mas não tenho a imaginação dele para falar coisas bonitas. Uso o pouco da criatividade que tenho no trabalho, pra resolver problemas sérios. No amor, sou simples. Não sou de recitar poemas e ficar de chamego no sofá da sala. Sou pragmática. Então eu gosto do Jorge e de estar ao seu lado. É por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A separação veio depois da única vez que ele dormiu aqui em casa. Até lá, tudo eram rosas. Depois de sairmos cada um de seu respectivo expediente – eu sou professora e ele é enfermeiro -, nos encontrávamos em meu apartamento e transávamos até o começo da manhã. Cinco, seis horas direto, quase todos os dias. Fantástico. O Jorge tocava em mim, me beijava, com uma segurança que me deixava mole. Não importava o estresse com os meninos da 4ª. série, jogando bolinha de papel e me insultando quando eu virava as costas: quando estava com ele, minha alma tomava um bom banho e as perturbações do dia escorriam como água suja. Ele me preenchia de um jeito... eu olhava seus olhos – e ele sorria. E eu sorria. Pulávamos, gozávamos, ríamos a noite toda. De manhã, eu caminhava insone para o trabalho, dolorida e feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não imaginávamos que as coisas pudessem melhorar. Era verdade: elas só pioraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de várias semanas do Jorge saindo, no meio da madrugada, pra voltar à sua casa, perguntei se ele não gostaria de dormir comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou sério. Disse que não podia, infelizmente. Que não estava pronto para esse tipo de intimidade. Normalmente eu ficaria incomodada, mas a noite havia sido tão boa e ele havia dito aquilo de forma tão gentil que não me esquentei. Beijou-me e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, nas noites seguidas eu insisti no assunto. Fiquei martelando como ele poderia me comer por meses e depois dizer que não éramos íntimos o suficiente para que ele dormisse lá em casa. Não era só sexo, afinal de contas – saíamos às vezes e nos divertíamos muito. Ainda assim, ele continuou nas negativas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não trouxe escova de dentes, toalha, gilete, e eu preciso me barbear quando acordo. – era uma de suas desculpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Hoje não, amanhã. – era outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não quero te incomodar. – dizia, calçando o sapato com os olhos fugidios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fitava meu rosto, muito sério. Eu pensava que havia outra mulher, que ele estava em regime semi-aberto e tinha que voltar para a prisão antes de dormir, que ele peidava insuportavelmente, que tinha que regar as plantas e sentia vergonha de me contar. Ou que sentia medo de mim, do que poderíamos nos tornar. Hoje, ele dormiria em minha casa. Amanhã, traria suas roupas. Pouco a pouco, nossas vidas se entrelaçariam e ele perderia a independência que prezava tanto. Mas ainda assim não fazia sentido: o medo de intimidade só se manifestava na ocasião em que eu lhe pedia para que ficasse. No mais, convivíamos normalmente, com carinho e cumplicidade. Sentia-me frustrada por realizar tantas coisas plenas a seu lado e não conseguir concretizar aquele desejo tão banal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Depois, - ele me falou, uma noite – eu conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contou-me. Confessou que gostava de mim e ansiava voltar ao meu lado quando não estávamos juntos. Mas carregava um segredo que o impedia de adormecer comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse-me que sonhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem pesadelos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pior. Delírios, horríveis, sufocantes, não consigo descrever. – falava baixinho, em lagrimas. – Não me lembro de nada na manhã seguinte. Por isso durmo pouco. Instintivamente, procuro acordar logo para não passar por isso. E é todo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já foi ao médico?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muitos, mas ninguém consegue descobrir o que é. Já tentei de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chorava. Tive pena. Reclamei porque ele não falara aquilo antes, que ter problemas durante o sono era um distúrbio normal e que eu o ajudaria. Eu, a heroína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é tudo. – respondeu – Também falo coisas quando estou dormindo. Coisas pavorosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tremia. Suas mãos suadas agarravam as minhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nenhuma mulher jamais conseguiu dormir comigo. Desde adolescente, meus pais colocaram isolamento acústico no meu quarto e trancavam a porta para que ninguém ouvisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso dizer. – e explodiu em soluços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu o abracei. Senti medo, mas também alivio. Estava próxima a ele e decidi ajudá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de muita conversa, convenci-o a passar ao menos uma noite aqui em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não vai me atacar, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, – disse – não é assim. Mal me mexo. Só falo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não transamos naquela noite. Estavam os dois apreensivos: ele, pelo efeito que causava nas mulheres após adormecer; eu, pelo desconhecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorei a dormir. Minha última visão foi Jorge com os olhos arregalados, fitando o teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava na praia; caminhava entre as ruínas de uma casa abandonada e o mar, que, refletindo o sol ao entardecer, parecia sangue. Súbito, fui puxada de volta à consciência. Abri os olhos no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge pronunciava algumas palavras com a voz grave e rude dos que acabaram de acordar. Sabia que isto aconteceria e não me surpreendi. O modo como a voz era inteligível e articulado, contudo, fez-me duvidar se estava dormindo. Sua respiração pesada e o tom inumano, sonâmbulo com que falava convenceram-me que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gradualmente, livrei-me dos restos de sono e concentrei-me para escutar as palavras. Elas entraram pelo meu ouvido e, navegando pelo corpo, agarraram e espremeram meu coração. Senti-me tonta, agarrada à colcha para não enlouquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lágrimas brotaram-me dos olhos, e bagas de suor escaparam-me pelos poros. Meu estômago contorcia-se a cada frase, a cada insulto balbuciado por Jorge. O homem doce que eu conhecia estava morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segurei-me para não sacudi-lo e tirá-lo daquele transe. Havia lido que os sonâmbulos podem morrer instantaneamente se forem acordados. Mas também não conseguia permanecer ali: levantei-me e fui para a cozinha, mas as palavras de Jorge continuaram a assombrar. Eu entendera errado? Como alguém seria capaz de imaginar aquilo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como alguém carinhoso como ele poderia transformar-se numa aberração à noite? As coisas que ele dizia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebi um copo d’água. Aninhei meu rosto entre as mãos e chorei. Por alguns instantes, senti o juízo me abandonar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No outro dia, Jorge nada disse. Apenas olhou para mim quando, em minha inútil tentativa de fingir que nada acontecera, eu disse que ele havia permanecido em silêncio a noite toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestiu-se lentamente. Tomou o café; deu-me um beijo seco no rosto e avisou que chegaria tarde. Nunca mais o vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que mais me assustara foi o tom com que ele falou seu discurso horrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calmo, lúcido, objetivo – como se estivesse acordado, brincando com meu desespero. Usando-me de cobaia num experimento de tolerância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes imagino se o Jorge verdadeiro não seria o Jorge inconsciente, destinado a inocular seu veneno sobre a humanidade, enquanto o Jorge que eu amava seria o alter-ego, a fantasia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer maneira, tento não gastar meu tempo pensando nessas coisas. Deixo a imaginação para o trabalho. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116451142806690111?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116451142806690111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116451142806690111' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116451142806690111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116451142806690111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/sono.html' title='sono'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116442692105667725</id><published>2006-11-25T01:47:00.000-02:00</published><updated>2006-11-25T02:22:44.113-02:00</updated><title type='text'>ano e meio</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/200/973783/capadisco.jpg" border="0" /&gt;Hoje faz um ano e meio que nos separamos. Quando penso nisso, só me lembro de João Gilberto cantando “tá fazendo um ano e meio, amor... que nosso lar... desmoronou” (perdoe o desafino). Acho que estou bebendo agora pra comemorar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“Comemorar o quê?!”, dirão. “Não doeu, não foi terrível? Quantas vezes nesse tempo você não a imaginou em seus braços? Por quantos meses mais você irá se recriminar de haver terminado as coisas do jeito mais doloroso possível? O que há para se comemorar nisso?”&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É verdade. Mas, mesmo com a depressão e o remorso, sempre pensei e ainda penso que tomei a decisão correta. Se hoje posso viver com sua memória de modo relativamente sereno, é porque tomei decisões que, mesmo precipitadas, saíram do fundo de minhas entranhas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pouco a pouco, paro de repisar as circunstâncias do fim de caso. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os dias de ressentimento tornaram-se horas, minutos e, finalmente, instantes de melancolia concentrada. Seu rosto, que tanto me feria nesse meio tempo, agora não possui mais os detalhes e as feições dos quais eu me recordava tão bem. Em algum tempo não passará de uma mancha branca com o mero esboço dos olhos e da boca. O sexo se transmutará em outros gozos, novos cheiros e texturas, recriando o tecido de seus gemidos em infinitas combinações. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sua voz rouca e doce se confundirá com a miríade de outras vozes que, agora, ocupam meu pensamento. Assim é o movimento do mundo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E pensar que, na minha terna ingenuidade, eu cheguei a suspeitar que alguns amores haviam nascido para durarem para sempre... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116442692105667725?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116442692105667725/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116442692105667725' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116442692105667725'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116442692105667725'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/ano-e-meio.html' title='ano e meio'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116442523773191945</id><published>2006-11-25T01:20:00.000-02:00</published><updated>2006-11-25T01:56:35.426-02:00</updated><title type='text'>assim começa</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/1600/931467/longing.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/4746/1310/200/195819/longing.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Sabe o quê? Vou parar de insistir. Muita coisa aconteceu. Com tantos mal-entendidos, tantas coincidências ingratas, eu comecei a acreditar no destino e o tempo correu pra trás. Ela parece que está ali, por um momento (estou falando da felicidade, por favor), um cristal tão frágil, para dissipar-se no instante seguinte, e eu continuo andando com minhas velhas companheiras. E, em outro mal-entendido / confusão de horário / imprevisto, Isabel Evangelista some das minhas vistas apenas para continuar na memória: inalcançável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, ela ligou. Não pude discernir muito o que dizia: compreendi apenas que estava bêbada e que sentia muito por nenhum de nossos encontros ter se concretizado. Percebi que ela sentia o mesmo que eu; que também se cansava das escrotices do destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde que nos vimos pela primeira e derradeira vez na casa de uma amiga em comum, rolou uma empatia mútua. Sincronicidade de tempos. Trocamos algumas palavras amistosas e medimo-nos com o olhar. Pude imaginá-la fazendo uma série de coisas, e não duvido que ela tenha pensado o mesmo. Anotamos os telefones e partimos, com a certeza de nos reencontrarmos. Mas nunca conseguimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro encontro, esperei duas horas no café. Ela ligou e disse que a avó havia sido internada. Desculpava-se. Normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na semana seguinte, o pneu do meu carro furou a caminho do cinema. Quando cheguei, ela já tinha partido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequenos acidentes e contratempos interpunham-se entre nós. Uma vez, descobri que ela havia estado no bar poucos minutos antes de eu chegar. Outro dia, no exato momento em que ela saía de casa para me ver, uma turbina de avião caiu em cima de seu prédio. Não estou brincando! Deu no jornal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, tão descrente de religiões e dos livros nos quais os deuses escrevem nossos nomes, gradualmente passei a crer na teoria do caos e em feng-shui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Evangelista, que aparentemente estava fadada a tornar-se mais uma das muitas promessas feitas e não-cumpridas em minha vida, virou meu pesadelo: aquela que deveria ser e não foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nossos e-mails e telefonemas às altas horas da madrugada, eu sentia que ela pensava o mesmo e procurava desesperadamente um caminho de trair o destino. Aceitei o desafio, mas perdemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu saía rumo à sua casa, no horário em que eu estava certo de que a encontraria, acontecia alguma fatalidade: a avó de novo, uma emergência no trabalho, uma infecção estomacal. Um bêbado chegou a invadir a casa dela com o carro - e olha que ela mora no terceiro andar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu consideraria tudo isso lorotas e a mandaria ao inferno caso não acontecesse o mesmo tipo de coisa comigo. E Isabela, um belo dia, transformou-se em meu Cristo particular: meu dogma. Eu nunca mais a vira, nunca a amara fisicamente, mas não era necessário; eu acreditava piamente em sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou louco: juro que a vi. Por poucos segundos, digo. Ela atravessou a rua e desapareceu na esquina. Subiu no ônibus. Saiu apressada do cinema. Atendeu-me na farmácia. Fez meu imposto de renda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, faz tanto tempo desde que a vi, há tantos anos, que hoje todas as mulheres do mundo possuem o rosto de Isabela. Alguns dos homens, inclusive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, ela ligou. Disse que estava bêbada e que sentia muito por nunca termos conseguido nos encontrar. Esses contatos já haviam virado rotina. Tudo bem. Eu a ouvi por algum tempo até ela sussurrar um “boa noite” torto e desligar. Minha querida Cristo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava numa situação confortável. Poderia passar o resto da vida medindo minhas mulheres por Isabela. Por aquela que amei e nunca. Por aquela que esperei e me esperou. Pela minha amante de quartos separados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí lembrei daquela do Ulysses Guimarães (devia ter algo de muito estranho naquele chopp pra eu me lembrar do Ulysses): ele disse que, se esse negócio de “e se”, “e se” funcionasse, Paris caberia no fundo de uma garrafa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E se...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora chega.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116442523773191945?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116442523773191945/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116442523773191945' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116442523773191945'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116442523773191945'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/assim-comea.html' title='assim começa'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-37667329.post-116382239956423568</id><published>2006-11-18T01:59:00.000-02:00</published><updated>2006-11-25T01:58:21.856-02:00</updated><title type='text'>café</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/4746/1310/1600/cofmod.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/4746/1310/200/cofmod.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Brasil, década de 30 do século XIX. Apoiado por grandes fazendeiros do Vale do Paraíba, em São Paulo, e pela crise da produção mineradora no final do século anterior, o café torna-se o principal produto de exportação do país e o maior da economia do Império. A sementinha vermelha, enviada às centenas de toneladas para a Europa e os Estados Unidos, consolidou a riqueza dos cafeicultores do Sudeste e impulsionou a urbanização e a infra-estrutura de transportes, além de garantir capitais para o início do processo de industrialização na aurora do século XX. O café, às vezes, é mais do que café.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Herdeiros dessa longa tradição, Viviane e Fulgêncio inauguraram seu “coffee-shop” no ano passado. Situado num canto tranquilo do shopping, o “Good Coffee” tornou-se o xodó e a obsessão do casal. Era seu primeiro grande empreendimento juntos após três anos de noivado. Os pais diziam que, com a loja, nascia o primeiro filho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A mãe dela, empreendedora frustrada, resumiu com uma ponta de sarcasmo:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- O casamento deles está aí, agora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Os dois não cabiam em si. Fulgêncio, empolgado, já pensava em deixar o emprego de enfermeiro e trabalhar 24 horas na cafeteria. Planejava expansões, filiais, abriria restaurantes e redes de supermercados. Mais cautelosa, Vivi já se dava por satisfeita se conseguissem pagar as prestações do apartamento em que pretendiam morar. Se muito, também o carro usado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No dia da inauguração, chamaram ambas as famílias e todos os amigos. Conhecidos elogiaram a iniciativa do casal, afirmando que faltava espírito empreendedor ao povo, a coragem de entrar no jogo capitalista com vias de realizar seu próprio futuro e não esperar que o Estado lhe desse de mamar a vida inteira. É por falta disso, afirmavam, que o país estava na merda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fulgênco e Viviane sentiram-se a própria mola propulsora do crescimento e desenvolvimento nacional. Quando chegaram em casa, treparam como dois endemoniados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A “Good Coffee” rendeu o suficiente para que não fosse necessário investir mais dinheiro, mas não lucrou nada durante os seis primeiros meses.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao final do prazo, os telefonemas do banco onde Fulgêncio havia feito o empréstimo ficaram mais frequentes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Viviane desistiu de trocar os móveis do apartamento alugado onde moravam. Pouco depois, os dois se mudaram para outro alugado, menor.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As conversas sobre o gerenciamento da cafeteria estavam tornando-se cada vez mais acaloradas. Fulgêncio tentava convencer Viviane a tomar outro empréstimo e fazer melhorias na loja enquanto ela queria cortar gastos e despedir uma das funcionárias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(Dizia que ela era incompetente, mas o que pensava mesmo era que a piranha estava dando em cima de Fulgêncio.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;De enfermeiro e professora, os dois converteram-se em economistas. Sacudiam planilhas de faturamento na cara do outro, disparando metas de planejamento e idéias de marketing. Começaram a dormir em camas separadas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando estavam prestes a vender o ponto e terminar o noivado, uma nova loja de deparamentos abriu ao lado da “Good Coffee”. Seus numerosos funcionários passaram a almoçar e lanchar na cafeteria. O negócio ganhou novo ímpeto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Espalhou-se o boca a boca. Pedindo um empréstimo aos seus pais, que, a essa altura, já se preocupavam com a sanidade mental da filha, Viviane comprou uma partida de café especial colombiano e roubou as receitas de uma cafeteria concorrente. O faturamento explodiu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Fulgêncio largou o emprego e negociou a compra do espaço ao lado. Semanas depois, também abriu uma filial em outro shopping próximo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O sucesso, contudo, não trouxe a serenidade de volta ao casal. Davam-se muito bem nas reuniões de negócios – cada um havia trazido dois sócios para a jogada – e revelaram-se excelentes empresários. Entretanto, após os encontros, voltavam para casa, comiam e dormiam sem falar uma palavra ao outro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Viviane casou com um dos sócios, amigo que o ex-noivo havia apresentado. Fulgêncio continuou a dormir com a ex-caixa da cafeteria, agora promovida a gerente de estoque.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No mês passado, abriram a décima filial e a primeira fora do país. Já moravam em coberturas separadas e não se encontravam há tempo. Todos os negócios eram agora resolvidos por gerentes e administradores contratados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ontem, reencontrei Fulgêncio. Estava pálido, as mãos tremendo. Contou-me que havia ido para uma festa no iate de uma das acionistas da “Good Coffee”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois de surubas e de uma rodada de pó, encontrou-se pensando em Vivi. Saiu do iate de manhã e dirigiu para o shopping, ainda com ela na cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As lojas abriam. O bafo frio da manhã de São Paulo fazia brotar lágrimas aos olhos e travava-lhe a garganta. Olhou a cidade fria que se delineava sob o sol – cem anos atrás, a poucos quilômetros dali, estendiam-se imensas plantações de café, colhidas por mãos negras e brancas. Pujança do Império; riqueza forte e assombrosa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Foi até a “Good Coffee”, transformada num megaplex onde se vendia utensílios de cozinha e café de todos os sabores. Pediu um expresso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por mais que despejasse açúcar, no entanto, não conseguia livrar-se do gosto acre e amargo que sentia na bebida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/37667329-116382239956423568?l=beijemeidiota.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/feeds/116382239956423568/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=37667329&amp;postID=116382239956423568' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116382239956423568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/37667329/posts/default/116382239956423568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://beijemeidiota.blogspot.com/2006/11/caf.html' title='café'/><author><name>Selvageria</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
