sexta-feira, outubro 19, 2007

... e foi aí que começaram meus problemas.

(parte I)

Fala com a voz límpida, um forte sotaque carioca e uma gentileza que, em outras circunstâncias, eu até teria apreciado:

- Estamos com sua filha. Junte cem mil reais e espere por nossa ligação. Se você falar com a polícia, ela morre.

Desliga. Fico olhando para o celular, apatetado. A primeira coisa que me vem à cabeça quase me faz vomitar, e fecho os olhos de tanto ódio que sinto de mim mesmo naquele segundo: “pelo menos, não vou mais gastar dinheiro com brinquedos”. Existe algum canto muito perverso na minha cabeça para que eu pensasse nessa piada sórdida. Porém, tudo faz parte da insanidade daquele telefonema – a realidade deu uma pausa. Instantes depois, eu já esclarecia a vista, e a sucessão de coisas a fazer parecia definida. Não há tempo para ficar ruminando sobre os monstros que habitam na mente da gente.

Com um pulo, corro para a porta da frente, pegando a chave do carro e a carteira no caminho.

*

Disparo com o carro pelas ruas que me levarão à escola. No caminho, agarro o celular com força, tentando acertar as teclas do número da diretora. Eu os sei de cor, mas a velocidade e o nervosismo tornam tudo mais difícil. Finalmente, jogo o celular para o banco traseiro; estou perto, afinal de contas. Penso em Márcia: aquela era a primeira semana que minha ex-esposa havia me deixado ficar com a Clarissa. Como eu posso dizer a Márcia que a haviam levado? Como conseguiria a confiança dela de volta?

“Nada disso”. Seguro o volante com as duas mãos. “O problema principal está na sua frente, resolva-o antes de pensar em outros”. Essa foi uma das boas coisas de meu treinamento no Exército, a capacidade de isolar as variáveis e pensar em uma bronca de cada vez. E, neste momento, meu problema é conseguir Clarissa de volta, e não lidar com Márcia. Foco. Preciso de foco.

Freio o carro, as rodas guincham. Saio, deixando a porta escancarada. Imagino encontrar jornalistas, carros de política e professores assustados na frente da escola, mas não há ninguém. Corro através do portão, sem sentir meu próprio fôlego. Alguém grita para que eu pare. Ignoro: o cenário à minha frente se movimenta como num sonho. Entro no prédio do maternal; um grupo de crianças olham para mim, petrificadas de susto. Pulo os degraus das escadas. A sala dela fica no sétimo andar.

Quando chego lá, a fadiga em minhas perna começa a dar seus sinais. Ignoro: é estranho. Fora algumas crianças fazendo algazarra no corredor, não há sinal de polícia, nada. Penso, horrorizado, que talvez o seqüestrador a tenha raptado no caminho para casa. Mas mesmo isso não faz sentido, não a deixariam partir da escola desse jeito, não uma menina de cinco anos. Senão, eu pago essa mensalidade absurda de cara pra quê? Pra não poder deixar meus filhos no colégio com segurança, o mínimo que se precisa pra que a gente possa viver e trabalhar em paz? A culpa é desse governo, que não investe nada em segur...

Lá vou eu, me dispersando de novo. Foco. Pense no treinamento. Eu sou um soldado. Eu farei o que for necessário para que as coisas fiquem bem novamente.

Chego na porta da sala de Clarissa. Viro a maçaneta e jogo a porta para trás. A professora e as quinze crianças param de falar e olham em silêncio para mim, um silêncio que me corta em dois. Instintivamente, meus olhos se dirigem para o fundo da sala, onde ela costuma ficar. Caio de joelhos lentamente. Escuto vozes, mas nada ouço; olho as crianças, mas não as vejo. Finalmente percebo meu fôlego curto e estrangulado quando vejo Clarissa sair do meio dos meninos e correr em minha direção, rindo seu sorriso banguela, os braços muito abertos.

*

Horas depois, eu, Márcia e Clarissa saímos do circo que eu havia criado. Acomodamos-nos no carro – que, por um milagre, ainda estava com as portas escancaradas em frente à escola. Seguimos lentamente, quietos. Eu falara com a diretora, policiais, o porteiro: Clarissa não havia saído da sala de aula a manhã toda. Finalmente, percebi que havia sido vítima de uma daquelas simulações de seqüestro, em que o marginal liga de um telefone do interior do presídio e finge que raptou alguém de sua família. Um golpe corriqueiro hoje em dia, mas que já deixou desesperada (e mais pobre) gente mais sã do que eu.

Márcia, ao meu lado, parecia mais aliviada do que irritada. Clarissa, alheia às preocupações, observava a rua. Tudo em paz novamente.

Na metade do trajeto de volta à casa, um celular toca. O meu. Na confusão, eu o havia esquecido no chão do carro. A mãozinha delicada de Clarissa o pega e estende para mim. Agradeço e, antes de atender, vejo o número da chamada: “privado”. A mesma mensagem da ligação anterior. Era o “seqüestrador”:
- Alô? – falo, tentando segurar a raiva.

- Já juntou o dinheiro?

- Você deu azar, meu querido. – vejo, com o rabo do olho, Márcia ouvindo atentamente a conversa. – Minha filha está aqui comigo. Se você ligar de novo pra mim ou pra minha família, vou te cortar em pedacinhos e fazer você comer. Capisce?

Silêncio. Não deveria ter dito isso com a menina no carro, mas preciso descarregar meu ódio de alguma forma.

A gentileza da voz do carioca some e ele começa a gaguejar. Estranho, ele já deveria ter desligado o telefone.

- Vo-vo-você está louco, cara. Tamos aqui com sua filha. Quer que ela morra?

- Vá se foder. – murmuro, e desligo. Márcia olha para mim. Não sei se foi a melhor reação, mas agora já era. Esses caras do golpe nunca ligam de novo.

Meu celular toca. “Privado”. Penso se devo atender ou não. Atendo.

- Vá se fo-der! – repito, mais feroz. Minha ex-esposa sussurra para que eu desligue. Mas já é tarde demais. Ouço vozes ao fundo – um soluço. Choro de criança.

- Você é doido, seu Eduardo. Estou com a faca na garganta da tua filha. Se continuar falando comigo assim, corto a cabeça dela fora.

Paro o carro no acostamento, sob uma chuva de buzinas. Márcia está puxando meu braço, apavorada, pedindo que eu desligue imediatamente. Clarissa está de olhos arregalados e parece que vai desatar a chorar. Meu nome não é Eduardo.

- Meu nome não é Eduardo.

- Hã?! – pausa. O choro aumenta. – Esse não é o 9147-8716?

- Não. Esse não é meu número, e meu nome não é Eduardo.

Pausa.

- AH! PUTA QUIU PARIU! – ouço tapas e o carioca gritando com alguém. Gritos de homem ao fundo. O choro continua. – Filho da puta!! Seu viado escroto burro filho da puta! – Mais tapas. - ... pegou o telefone errado, seu escroto burro! Burro!!

Sinto-me no meio de um episódio dos Trapalhões. Mas o humor é rapidamente substituído pela voz nervosa do Carioca:

- Aí, meu chapa. Agora fudeu. Você tá metido nessa e vai ter que ir até o fim. Vai lá na... me passa o endereço, viado burro... vai na Rua Laranjeiras, 317. Fala com Eduardo Scherer, diz que estamos com a filha dele e que é pra esperar minha ligação. “Capixe”?

- Isso não é problema meu. – respondi. – Não tenho nada com isso.

- Rua Laranjeiras, 317. Fala com Eduardo Scherer. E rápido. Essa aqui pode não ser tua filha, mas vai pro saco de você não se mexer. E a culpa vai ser tua. – desliga.

Olho para Márcia, que está quase aos prantos, sem entender nada. É sempre assim: quando você pensa que seu dia já está chegando ao fim, descobre que ele nem começou.


(... continua!)

quinta-feira, outubro 18, 2007

tu vientre es una plaza soleada

Não sei se quero responder a essa pergunta. Mas vá lá, se eu não responder agora terei que fazê-lo outra hora, pois sempre haverá um gaiato esperando pra jogar isso em cima de mim:

- Você não deveria se surpreender por todas as histórias possuírem algo sobre o amor no meio: todas as histórias falam de amor. Todas as que importam, ao menos. E, antes que comece a reclamar de minhas generalizações e dizer que relativizo tudo, peço que olhe para cá e escute um instante:

Qual é a história que você já ouviu ou leu que não versasse sobre o amor? Já leu um romance que não falasse dele? E o quê significa “romance”, por acaso, senão o cortejo, a atração? Desafio a você para que me aponte uma única narrativa que não contemple o amor feliz, o fracassado, o amor de uma filha por um pai, de um homem por uma idéia, de alguém por si mesmo. Vamos parar de pensar apenas no amor de um ser humano pelo outro, já tão repisado. Falo dos outros nomes que o amor possui, inclusive daquele que não ousa dizer seu nome. A obsessão é o amor por um pensamento; a vingança, por uma revanche. Por Deus. Pela Pátria. Por um desejo alucinado, por uma virgem descarnada, pela arte, pelo ofício, pela fantasia; tudo é sobre o amor.

Não há livro, filme ou quadro que escape desse desígnio, não há mito que tenha sua origem fora dessa esfera. Não falo do amor sentimental, mas do arcaico, daquele que nos envolve e preenche, que nos impele, que nos ensina a sobreviver, daquele que nos força a contar nossas histórias. O amor me trouxe até aqui; e o amor me levará embora.

segunda-feira, outubro 15, 2007

lucyenne quer ser batman

Que as crianças se atraem por tudo o que é macabro e tenebroso, não é novidade. Nessa idade, o interesse pelas brincadeiras inocentes de casinha e carrinho andam lado a lado com a mania por decapitações, chacinas e crueldades dos filmes de terror e dos telejornais. Há um quê de proibido e asqueroso no cotidiano habitado por insetos e corpos putrefatos, monstros e fantasmas, que provocam menos repulsa que fascínio em meninos e meninas.

Lucyenne conheceu o macabro cedo e de forma mais terrível do que em simples histórias de fantasma. Aos nove anos, viu a mãe morrer em decorrência do câncer que a devorava há muito. O pai, já ausente e dado a sumiços prolongados, preferiu entregar menina nos braços da tia. Paciência, pensou. Havia um tesouro mais precioso na casa da tia do que a vida opaca que levara até então: a coleção de revistas em quadrinhos no armário do primo.

Ali, desde o momento em que terminava o dever da escola até a hora de dormir, ela se realizava com histórias violentas de crimes e assassinatos, anti-heróis sombrios de mundos onde a linha entre a loucura e a sanidade se mostrava fugidia. A menina vivia sob o signo da incerteza – não sabia o que queria fazer na vida, quando sairia da casa dos parentes ou como lidaria com sua maturidade precocemente adquirida -, e enxergava seus conflitos, de alguma forma, nos gibis. Gostava, sobretudo, das aventuras do Batman, o que lhe rendeu chistes maldosos no colégio:

- Menina que lê Batman é sapatão.

- Ora, por quê?

- Menina que pergunta muito também é sapatão.

Risos. A tia também não apreciava o gosto da Lu, e sempre a chamava para lugares que toda menina, pensava, gostaria de ir: salões de beleza, chá de senhoras, o bingo. Lucyenne a acompanhava passivamente, mas, assim que chegava em casa, se trancava no quarto com o primo para ficarem a sós com as revistinhas.

Lucas, o tal primo, obviamente não ficou indiferente a essa invasão surpresa. A princípio, tendo a mesma idade que ela, a enxotava do quarto toda vez que a via debruçada sobre a escrivaninha, lendo os gibis.

Depois de algum tempo, passou a usar métodos mais perversos para expulsá-la:

- Por quê você gosta do Batman?

- Por que ele bate nos bandidos. – respondeu a menina, sem interromper a leitura. - Quando eu crescer, vou ser igual a ele.

- Ruá, ruá, ruá. Você é louca.

- Por quê?!

- Você é pobre e escurinha.

- E daí?!

- O Batman é rico e branco. E é homem. Sua maluca.

Depois de jogar a bomba, Lucas saiu. A menina fechou a revista e pensou naquilo. O primo tinha razão, não havia dúvida. Bruce Wayne era tudo o que ela não era: grande, forte, podre de rico e, a ver pelos músculos, tinha boa saúde. Por outro lado, não aceitou que Batman fosse branco: ele era negro, possuía máscara e capa pretas. Ele ficava bonito, com o capuz e as luvas negras; ela também ficaria, quando chegasse a hora.

Lucyenne cresceu. A leitura dos gibis diminuiu, enquanto sua retidão e timidez prosseguiram. Ainda assim, Bruce Wayne guiava sua vida, de algum modo: ainda sonhava em ser rica, em trabalhar e tomar conta de si mesma. Estava louca para sair da casa da tia, que, quando percebeu que não conseguira transformar a sobrinha na filha prendada que sempre quis ter, não parava de atormentá-la com brigas e pequenas discussões. A fim de economizar dinheiro para alugar um apartamento, Lucyenne trabalhava à tarde numa loja do shopping e fazia cursinho à noite. Não sobrava muito tempo para o homem-morcego.

Um dia, já com seus dezesseis anos, estudava na escrivaninha de Lucas. Os gibis do armário haviam ido para o lixo há anos, e ela só continuava a ir para o quarto dele porque era o único lugar da casa onde a luz era decente para ler. A escrivaninha também era confortável. Acabou cochilando.

Acordou com uma mão gelada no ombro. Teve um sobressalto quando viu o primo diante de si, sorrindo. Ele murmurou algo, mas Lucyenne sentiu apenas o fôlego nauseante de álcool que exalava. Pediu desculpas por ter ocupado a mesa e já se levantava quando a mão dele apertou seu ombro e a forçou a ficar sentada. Ele aproximou a boca do rosto da menina – o bafo luminoso da cachaça, os olhos injetados e felizes – e pressionou seus lábios contra os dela. Mão gelada subindo pela blusa. Arrepio. Instintivamente, ela o empurrou e se jogou da cadeira, aterrissando sobre a porta e a abrindo com força.

Disparou para a sala, e daí para a rua, e daí para o mundo.

*

Lucyenne caminhou até o janelão que se estendia de um lado a outro da imensa sala: sentiu o ar gelado que se insinuava pelas frestas, apreciou o cenário das árvores balançando contra o vento noturno, o silêncio e a quietude.

Antes que desviasse o olhar, porém, um raio de luz cortou o céu: a figura de um morcego deitou sobre as nuvens, pairando como uma sentença sobre o céu iluminado de Gotham City. Como em tantas outras vezes, a cidade precisava dela; e ela, por instinto, já corria para a passagem secreta que dava acesso à bat-caverna.

Por último, a moça calçou as botas, erguendo o capuz que provocava tanto terror no coração dos criminosos de Gotham. Não havia tempo a perder. Pulou para dentro do Batmóvel, engatou o turbo e disparou rumo ao coração da cidade, desaparecendo com um estrondo em meio às árvores.

ontem e hoje

ontem,
eu desejava que o dia nascesse
e a noite caísse
em rápido intervalo,
que a sucessão das horas
ocorresse instantaneamente,
sem que os segundos parecessem minutos
e os minutos, horas,
triste que era a constituição de meu espírito
e tédio o odioso tempo
em que eu, solitário, fazia-me companhia.


Mas tudo isso antes de ver a luz de seus olhos
e a leveza de sua alma.
Você me contagia com um quê que nem você sabe
o nome, sabia?
Você me enfeita e ilumina,
e todos os dias que passamos juntos
parecem-me curtos.


hoje,
desejo que o dia raie
e a noite caia
com uma imensidão de dias nesse ínterim,
que os segundos, minutos e horas
durem tanto quanto a eternidade,
tanto quanto nosso amor perdure,
benigno o efeito que sua matéria
provoca em meu uníssono,
e alvissareiro o milagroso momento
em que nós, unidos, somos todos
simultaneamente.


que a noite passe
e o dia venha,
pois já ficamos separados todos esses anos
e é hora de recuperar o tempo perdido.

sexta-feira, outubro 12, 2007

anunciação

Não sei porque, desde pequeno tenho medo desta música. Quando eu ouvia, nas rádios de Recife ou nas fitas cassetes velhas da casa de minha avó, me vinha um calafrio, talvez fosse a voz meio de profeta de Alceu Valença, ou algumas palavras soltas na letra, talvez você já tenha sentido isso. Recentemente, prestei atenção na música e percebi a razão de meu temor: eu pensava que os sinais de que a letra fala eram os indícios da chegada do diabo. Eu não acredito nestas coisas (sou mais um ateu, assustado demais para admitir a existência de Deus), mas, quando pensei nessa hipótese, tudo ficou mais claro. O tal que chega vai "brincar no meu quintal", chegar num "cavalo peito nu cabelo ao vento", já escuta os sinais, ser anunciado "nos sinos das catedrais", sei lá não parece coisa do céu. E essa "voz de um anjo" que "sussurrou no meu ouvido" tanto pode ser Gabriel quanto Lúcifer, que, antes de virar promotor na vara cível do Universo, era o anjo querido de Deus.


Da próxima vez que você for ouvir "Anunciação", pense nisso.

*

"anunciação", alceu valença

Na bruma leve das paixões que vem de dentro
Tu vens chegando pra brincar no meu quintal
no teu cavalo peito nu cabelo ao vento
E o sol quarando nossas roupas no varal
tu vens tu vens
eu já escuto os teus sinais
A voz do anjo sussurou no meu ouvido
e eu não duvido já escuto os teus sinais
que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais
Tu vens tu vens

*

(17)

Eu sou um monstro, uma besta. Perdi a capacidade de sentir, de demonstrar compaixão, coisas assim. Ódio e orgasmo nada mais significam: cuspo com indiferença a trajetória monótona dos dias.

Para quê, pergunto, tanto ruído, tanta choradeira...? Sinto meu sangue uns cinco graus mais frio... atingi a temperatura corporal de um crocodilo. Não espere de mim mais do que esperaria de um réptil. Não mais me encaixo na classificação dos seres vivos, na tabela periódica. Relações humanas, para mim, são pálidas distrações de um mundo que me rejeitou. Cultivo inimigos com a mesma intensidade com que dispenso amantes. Sou um lindo monstro.

Esqueço-me na varanda do apartamento, sem camisa, fumando um cigarro dez metros acima das buzinas e da fumaça da grande cidade. Vermes se arrastam no pavimento, suando seus problemas, carregando pastas e mudas de roupa. Nunca suo; a frigidez de minha pele, a minha esterilidade, impede infiltrações dos poros, não mais pertenço aos primatas.

Perto, reconheço uma jovem: há muito tempo, antes de minha metamorfose, ela me transmitia alguma paz, um traço de alívio. Hoje, causa-me náuseas. Me vê da rua: acena para mim, sorri. Eu poderia continuar o jogo, fingir que estou satisfeito por vê-la. Talvez, aí, tudo se tornasse mais fácil.

Mas não o faço. Permaneço imóvel, com o cheiro acre do cigarro levitando às narinas. Seu sorriso desaparece; sua mão descende. Sob meu olhar impassível, ela volta a caminhar, confusa, desorientada. Antes, dá uma última vista e tenta se convencer de que sou outra pessoa, um desconhecido.

Sou um monstro; uma besta. Os cães fogem ganindo quando me aproximo, atraio tempestades.

segunda-feira, outubro 08, 2007

o gato pardo

" Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais." (Edgar Allan Poe, "O gato preto")


Uma única imagem perseguiu-me durante toda minha longa vida: eu, aos sete anos, chorando ao lado da janela e sendo repreendida por mamãe. Também me lembro de ver minha avó debruçada na janela, procurando alguma coisa.

Tal coisa, como bem sei hoje, era seu gato pardo. Em minha crueldade infantil e, provavelmente, devido ao ciúme pelas atenções de minha avó, eu havia apanhado a pequena criatura e a lançado pela janela de nosso apartamento. Naquele momento, mamãe deveria estar gritando algo sobre não jogar gatos pela janela, especialmente se eles pertencessem a membros de nossa família.

Por décadas e décadas, essa fotografia mental me perturbou até o âmago de minha alma, fazendo-me retornar aos medos de menina no exato instante em que dela me recordava.

O impacto dessa lembrança dos meus sete anos meio que desviou minha trajetória para uma determinada direção. Nos anos seguintes, tudo – ou quase tudo – parecia originar-se daqueles gritos tenebrosos de minha mãe. Minha sensibilidade aguçou-se, e passei a considerar cada vida frágil e preciosa. Por incrível que pareça, passei a gostar de animais, e tentei transmitir à minha filha, assim que nasceu, minha paixão fervorosa por todos os seres vivos.

Dessa forma, é possível imaginar meu assombro quando, ao chegar em casa, minha mãe contou-me que a menina, em seus tenros sete anos, havia jogado seu gato pardo pela janela. Furiosa, chacoalhei a menina e berrei, disparando as frustrações acumuladas ao longo do dia e da vida, buscando fazer com que ela apreendesse a importância que cada existência possuía na tessitura do universo. Ela rompeu em prantos, obviamente. Arrependi-me do escândalo logo depois, mas não voltei atrás. Minha mãe, desesperada, buscava no asfalto o gato que a acompanhara por quase toda a velhice.

Naquela noite, temi haver traumatizado minha filha. Tive ganas de ir até seu quarto, acordá-la e beijá-la e dizer-lhe que poderia arremessar pela janela quantos gatos pardos quisesse, que eu nunca mais gritaria com ela daquele modo. Mas não o fiz: receei que, caso afagasse sua cabeça naquele momento, ela nunca aprenderia a lição. Permaneci na cama.

Creio que o incidente acabou causando grande impacto em sua personalidade. Da noite para o dia, tornou-se mais amarga e rancorosa. Os anos se passaram sem que, aparentemente, a lembrança daquele dia enfraquecesse em sua memória. Fingia ser gentil com todas as pessoas e animais, mas eu, sua mãe e criadora, sabia que ela não possuía qualquer amor sincero por qualquer ser que se arrastasse sobre a Terra. Era como se meus gritos houvessem interrompido, em um momento crítico, o natural processo de formação de seu temperamento. Naquele dia, algo morrera nela.

Ainda assim, vivi calada meus anos em seu apartamento e tolerando seus gestos vazios e indiferentes. Quando ela me comprou um gato, em sua auto-propalada ânsia de mostrar-se caridosa com sua mãe e um gato ao mesmo tempo, permaneci muda. Até quando nasceu minha neta, nenhuma satisfação cresceu em mim: observava o rostinho da criança por horas a fio, vendo-a chorar sem nada fazer. Finalmente, dava-lhe o leite ou trocava as fraldas, indefesa diante das escolhas que a vida havia me legado.

Diante da silenciosa e monótona derrota que minha filha havia me imposto, pude apenas praticar uma última vingança. Um dia, quando a neta já possuía lá seus sete anos, aproximei-me da janela com meu gato pardo. Por um largo tempo eu fingira que gostava do animal quando, na verdade, nada sentia além de asco por ele. Lembrava-me minha filha. Ela, tão fútil e cheia de si; tão vazia.

Senti que minha vida não havia passado de um tortuoso círculo de enganos e falsidades. O caminho a seguir parecia mais claro. Assim, levantei o gato e o empurrei pela janela.


sábado, outubro 06, 2007

(16)

- Até.
- Se cuida.
- Que pena.
- Então... é isso.
- Entendi.
- Era isso o que eu tinha pra dizer.
- O quê mais?
- Eu não funciono assim, não adianta.
- Você nunca vai saber o quanto te quero se não parar de agir desse jeito.
- Desculpa.
- Posso falar?
- Não dá.
- Você nunca vai saber o...
- Não te desejo dessa forma. Pode achar que é frescura, mas estar com você é muito mais.
- Então porque a gente não trepa e pronto?
- Sei que não.
- Mas eu não sou um totem.
- Talvez eu fique um pouco intimidado, sim.
- Você tem medo de mim?
- Tá.
- Responde uma pergunta.
- Também gosto de te ver.
- Gosto de te ver na noite, com uma bebida na mão.
- Andei meio recolhido.
- Cadê você?
- Pois é.
- Tempão, hein?

quinta-feira, outubro 04, 2007

o livro

Escrevi um romance pra você.

Sim, pra você. É uma comédia; quer dizer, é uma comédia dramática. Fala sobre nosso tempo juntos e o que ocorreu depois. Pensando bem, não houve nada de muito engraçado nessa época, houve? Então, retiro o que disse: é um drama. Um grande épico dramático, com alguns toques de humor negro. Tive que colocar isso pra que não ficasse muito chato, afinal, por mais que disséssemos que nossa história fosse extraordinária, isso não é verdade. Nossa história foi exatamente igual às outras e, se o livro parece banal, é porque tentei ser o mais fiel possível aos acontecimentos.

Hesitei muito antes de escrevê-lo. Conversei com os amigos que temos em comum e empreendi muitas reflexões. Pensei até em dizer-lhe que estava escrevendo, mas mudei de idéia quando concluí que você faria de tudo para que nossa história não fosse registrada em lugar nenhum e caísse no esquecimento. Então mantive você no escuro e só agora, com o livro no prelo, tenho coragem de dizer que ele existe. Ele é dedicado a você e, caso veja isso com ternura ou preocupação, pouco importa. Ele virá, impacientemente como Bruce Lee.

O livro vai acabar sendo nosso filho. Vamos projetar nele todas as nossas raivas e frustrações, nossos medos. Vamos acabar odiando-o como nos odiamos depois que nossa história acabou. Acho que não vai vender. Não creio que o mundo precise de (ou queira) mais uma história de amor, de mais uma derrota. No final, pensamos que podemos nos redimir contando (ou vivendo, ou assistindo a) uma história de amor, da mesma forma que pensamos que podemos recomeçar tudo ao ter um filho. Aí, tudo são flores. Flores artificiais, mas flores. Não demora muito e a redenção evapora. O livro azeda, e o filho cai na rotina, vira vítima de nossos vícios ao invés de redentor deles. Em pouco tempo, o livro cai na mesmice, nas mesmas situações eternamente repetidas. Nossa história rendeu um épico dramático, mas isso também aconteceu com todas as outras histórias. Umas poucas viraram livros e filmes, outras tantas se esvaneceram tão logo os amantes se separaram, mas todas, nem que por um breve momento, adquiriram as dimensões de um épico banal. Também um filho, que por um instante parece o ser mais sublime da Terra, transforma-se com o tempo num índice de nossos erros e vícios. Rapidamente, ele procura ter seu próprio filho para o redimir dos infortúnios herdados, e você termina com filhos e netos de desilusões.

Mas basta de filhos. Estou com um exemplar do livro na mão: gostaria de dá-lo a você. Qual é seu novo endereço? Vai me deixar entrar?

quarta-feira, outubro 03, 2007

eu tenho tantas coisas

Eu tenho tantas coisas,
Tenho tudo o que quero. Mas isto não faz de mim um homem,
comprar um carro não faz de mim um homem,
não sou um homem porque moro numa casa própria.
Tenho tudo o que quero, cada capricho,
Mas isto só faz de mim mais um solitário,
pois me ocupo apenas de minhas fantasias e ignoro as dos outros,
deixo que o egoísmo tome conta,
distribuo dinheiro e permaneço trancado.

Acho que não sou um homem porque não tenho você.
Não tenho você. Sou mais um solitário,
tenho tantas coisas. Mas não são elas
que fazem de mim
um homem.

domingo, junho 03, 2007

pra quem roubou meu coração

... tudo o que eu queria agora era estar com você, curtindo sua pele morena numa ansiedade louca, sentindo seu hálito e a curvatura do seu pescoço, com você descobrindo em mim ossos que nem eu sabia que existiam. Queria que esse ponto final nunca durasse, que a frase se prolongasse como agora prolongo a frase, que sua boca macia e ligeira destruísse minha boca, que eu a bebesse, que você me consumisse, eu queria ver que por um segundo você me provou e descobriu do que éramos feitos. Arrancamos as roupas de um e do outro porque achamos que botões e zíperes eram distrações dispensáveis para nossa sanha.

Suas unhas afundaram em mim e temi que você quisesse me perfurar e habitar em minha pele.

Admirei seu corpo negro por tanto tempo que alguém diria que não havia uma revolução lá fora.

Você me comeu a alma antes que eu pudesse te dar um beijo e se nós fizemos com tanta força foi porque eu queria minha alma de volta.

Te vasculhei inteira, sem nada encontrar. Cadê minha alma? E pare de revirar os olhos.

Gotas salgadas despencam do alto de rochedos e chegam ao teu ventre, que arqueja, projeta e contrai.

Manchas de consciência pulsam em minhas têmporas latejantes. Rasgos de realidade interpõem-se entre nós.

Foi o momento mais lindo.

*

Acordo. A manhã mais fria. Junto os cacos e, tristemente, parto. Olho você, dormindo indiferente. Olho você, que ainda tem tantas canções pra cantar.

Saio à rua e sento na esquina, esperando alguém. É domingo. Vai passar.

(15)

A história de nossas vidas é a história de nossas frustrações sexuais. Nada simboliza melhor a condição de apatetamento que assola nosso caráter, nada demonstra com mais eficiência a sensação de impotência que rege nossa existência. De todos os embates que enfrentamos - a luta pela sobrevivência, pelo sucesso, pela transcendência -, este é o mais baixo, o alicerce mais fundamental do espírito. Vivemos no limite, sabendo que sempre poderíamos ter mais sexo, mais selvageria, em nosso dia-a-dia: e essa certeza, de que a vida poderia ser um evento memorável e não é, nos corrói.

Certamente é trágico pensar que a riqueza da essência humana se faz conduzir pela libido; mas pensei muito no assunto e não consigo chegar a outra conclusão. Talvez eu vá mudar de idéia no futuro, mas não creio.

Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, não é possível separar as esferas da vida - a emocional, a social, a profissional e assim por diante - e achar que é possível ter "azar no trabalho e sorte no amor", ou relacionar-se bem com seus vizinhos quando sua vida em casa está uma merda. Todos os fatos vividos estão conectados, hierarquizados numa sucessão de sensações de amor, fraternidade, solidariedade, renúncia e angústia, regidas todas pela frustração a que me referia. A fonte da vida, o "animus", a alma de cada ato movido pela paixão que provocamos e sofremos, provém da libido e das frustrações que seu atrofiamento acarreta.

A libido é um fluido, um músculo, um órgão, um organismo que nos move e liberta, que fatalmente nos extermina, que nos impele ao abismo da felicidade. "O homem é estômago e sexo", disse Schopenhauer. Buscamos o tempo todo e de diversas maneiras romper essa ditadura da pele, trair a gramática do sexo, mas essa tentativa acaba nos tornando mais miseráveis.

Melhor seria abraçar nossa herança animal, torná-la irmã da sociedade que levamos séculos para construir e desenvolver. Viver civilizadamente, em sociedade, não é mal, nos proporcionou o domínio sobre a natureza e os nossos instintos auto-destrutivos. O exagero da civilização, no entanto, nos levou à robotização e ao aprofundamento de nossas frustrações. Não seria muito mais interessante viver sob o paradoxo do homem e do animal, ao invés de entregar a alma ao homem para matar a besta interna?

A angústia de não conseguir conciliar os extremos da besta-fera e do autômato civilizado é o que torna nossas frustrações sexuais o motor de nossas vidas. Transformamo-nos em crianças no sentido emocional com capacidade para matar por qualquer motivo, e esse é o pior dos mundos.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

paz

Tudo vai bem.

Encosto na poltrona, apóio a cabeça, olho o teto, adormeço. Esqueço Saddam Hussein, a estagnação econômica e o aquecimento global por um instante. Concentro-me em meus pequenos dramas, minhas minúsculas tragédias que não reduzirão a assombrosa desigualdade de renda que existe nesse país, meu Deus! Penso apenas em meus erros e nas pessoas que deixei pra trás.

Apesar de muitas bolas fora, tudo vai bem.

Ainda te amo. Podemos ter gritado muito um com o outro nos últimos dias, e você ter saído de casa xingando minha masculinidade, mas te amo muito. Sei de cada coisa que você guarda na gaveta. Consigo diferenciar sua satisfação de seu sarcasmo. Te leio como a um poema de Octavio Paz, e sei que você também me ama ainda.

Apesar de sua partida e de todos os equívocos bestas do mundo, tudo vai bem.

Tento pensar que a vida é maior do que você, e isso provavelmente é verdade. Sou, porém, muito comodista: detesto mudanças. Se te amo e te quero a meu lado, é porque já te conheço e já nos transmutamos em peças que se encaixam quase perfeitamente. Não quero trabalho, preocupações. Quero a certeza.

Apesar de tudo, tudo vai bem.

domingo, dezembro 31, 2006

fim de ano (3)

Chega. Daqui em diante, pra cada mensagem de natal e ano-novo que eu receber vou afogar um cachorrinho.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

traição

- Você está sujo aqui…

- Opa! Obrigado.

Ela molhou o dedo nos lábios e esfregou meu colarinho. Acho que uma semana de encontros com ela não me dariam a intimidade instantânea daquele momento: rapidamente senti seu cheiro e seu suor, vi a forma alveolada dos dentes, a minúscula falha na orelha. Nunca tínhamos nos falado antes, mas eu já estava com um pouco de sua saliva em mim e o relógio marcava apenas oito e meia. Será que eu conseguia ver que as coisas não iriam parar por ali?

Entabulamos. Era Cecília, fazia medicina e era muito amiga da namorada de meu irmão. Conversávamos sobre o Mauro quando minha namorada voltou do banheiro. Imediatamente, ela interpôs-se entre Cecília e eu, agarrou meu braço e me deu um beijo.

Apagando o sorriso e sem outra palavra, Cecília meneou a cabeça em minha direção e partiu.
*

A três quarteirões de onde moro existe um cineminha de arte. Todo o pessoal universitário, artistas e desocupados em geral vão lá assistir ao último filme independente americano ou a alguma porcaria francesa. Vou duas vezes por semana porque é barato e o ar-condicionado é forte.

Duas semanas depois da festa, encontrei Cecília. Lembrei-me de que já a tinha visto no cinema algumas vezes. Estava acompanhada da namorada do Mauro.

Fiquei com as duas, conversando animadamente. Ela adorava filmes, então eu menti e disse que também gostava, que eu lia tudo que me caía nas mãos sobre Bergman, Fellini, Kubrick, que eu gastava meu salário de estagiário no jornal todinho em aluguel de fitas. Ela perguntou de minha namorada (porque mulheres gostam de entrar nesses joguinhos?). Disse-lhe que ela não gostava desse tipo de filme.

Quando minha cunhada foi comprar pipoca, roubei o celular da mão de Cecília e digitei meu telefone. Disse que, quando quisesse falar sobre cinema, era só ligar.

- Só se for pra conversar sobre cinema mudo. – ela respondeu na bucha. Franzi a testa, pensei um pouquinho e ri.

Entramos na sala.

* *

Cecília chegou atrasada no café. Pediu desculpas e depois pediu mais desculpas por ter adiado tanto o encontro: sabe como é, provas, exames... disse que Mauro era médico e que eu a entenderia.

- É, medicina é fogo. – respondi.

Pausa.

- Sua namorada não vai se importar de estarmos aqui?

Outra pausa.

- Provavelmente. Você quer ir embora?

- Não, mas também não quero causar problemas.

- Problema nenhum. Não estamos fazendo nada de mais, não é?

- Acho que não.

Sorri, e ela sorriu de volta. Em frente ao café, alguns meninos corriam de skate, aproveitando os últimos raios da tarde.

- Quer dizer, se eu pegasse na sua mão, desse um beijo e começasse a falar coisas bonitas pra você, talvez isso fosse um pouco errado. Mas não estamos fazendo nada disso.

Ela concordou.

- E ainda isso depende do ponto de vista. – arrematei. Sua mão segurando a xícara tremeu um pouco.

- Não quero causar problema. – murmurou.

Tão lindo, o rosto. Face de mulher; traços fortes, delicados, um sorriso cheio, um corpo esperto. Ela podia estalar os dedos que eu ficaria ao seu lado pelo tempo que quisesse. Nós nos queríamos, e não havia nada de errado nisso.

Ainda assim, ela desviava o olhar.

- Vamos fazer o seguinte? – falei de repente. – Vamos ficar cinco minutos em silêncio. Cinco minutos. Depois, se a gente estiver mais relaxado, podemos conversar. Se não, vamos embora e ninguém fica magoado.

Ela riu nervosa. Olhou para mim como se eu fosse um bicho muito especial e assentiu com a cabeça.

- Certo.

Calamo-nos. Ao redor da praça, os meninos corriam de skate pelo asfalto.

terça-feira, dezembro 26, 2006

amigos

Permaneço sentado, atônito. O chão some sob meus pés, gotas frias começam a surgir na minha testa, posso sentir. O ruído das crianças gritando na praça de alimentação baixa, até sumir por completo. Diana e Tibúrcio continuam olhando para mim, ansiosos, talvez um pouco arrependidos do que acabaram de dizer. Imagino que tenha sido uma escolha difícil. Mais difícil, no entanto, será escolher as palavras que terei que pronunciar no momento seguinte.

Gosto dos dois. São bons amigos: ele fez parte da minha turma de faculdade, e ela começou a namorá-lo na minha festa de noivado (o meu finado noivado...), há três anos. Não há oportunidade em que nos encontremos para que eles não me encham de abraços e palavras afetuosas. Eu, em troca, ofereço-lhes os ingressos de cinema e os brindes que aparecem no meu trabalho. Saímos uma vez a cada dois, três meses, bebemos um vinho, papeamos sobre as dificuldades dos trinta anos. São legais. Quer dizer, não são meus amigos mais próximos, mas podemos nos chamar de “amigos” sem constrangimento algum.

Era assim até dez segundos atrás. Agora, os dois passaram para a próxima fase de nosso relacionamento.

- Desculpe. – sussurra Tibúrcio, assim que vê minha hesitação. – Foi totalmente inconveniente, terrível...

- Nós só pedimos porque confiamos muito em você, querido. – diz Diana, quase às lágrimas. É muito emotiva, sofre dos nervos. – Nem pense que nós dois somos uns pervertidos, Deus me livre de você pensar uma coisa dessas...

- Esqueça tudo o que dissemos. – ele pede, em vão.

Sorrio murcho e abano a mão, como se para afastar o constrangimento. O diabo é que os dois são terrivelmente feios. Material de guinchar de medo. Sem sacanagem nenhuma, os dois são medonhos, e eu, mau amigo, consigo pensar apenas na cara coberta de espinhas do Tibúrcio, na pele oleosa e inchada da Diana, nos dentes enegrecidos dos dois, nos olhinhos minúsculos dele e em sua expressão apalermada, no hálito azedo dela e em seus braços peludos...

- Pelo amor de Deus, fale alguma coisa. – ele suplica. Percebo que estive com os olhos arregalados e calado por quase um minuto.

Por outro lado, são meus amigos. Não há nada de errado no que me pediram; ao contrário, denota um grau de confiança que eu mesmo não concedo a ninguém. Foi um pedido muito doce, sincero. Subitamente, sinto-me um palerma por não aquiescer. E porque não?

- Claro que eu aceito. – falo de repente, uma oitava acima do normal. – Claro que sim. É uma honra.

O rosto dos dois se ilumina. Diana deixa escapar um suspiro, e sinto um odor azedo de ovos alcançar meu nariz. Esforço-me para permanecer sorrindo. Tiburcio quase dá um pulo:

- Que bom! Que bom, que bom! Você não vai se arrepender. Vai ser muito legal. – ele pega um papel do bolso e o coloca em minha mão. – Aqui está nosso endereço. Sexta à noite está bom pra você?

- Está ótimo. – o sorriso congela em meu rosto.

Ele aperta minha mão, profundamente agradecido. Depois, diz que eu provavelmente estou constrangido e que não querem incomodar-me mais. Eles se encarregarão de tudo. Sexta às oito da noite, então, tudo bem? Ótimo.

- Um grande abraço. – diz, e se levanta com Diana.

Antes dos dois partirem, ela vira para mim e pisca.

Amigos.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

selvageria

Nunca hostilizei uma mulher bonita, mas a primeira vez existe pra isso.

Ela se aproxima lentamente, medindo cada passo como uma atriz em sua grande performance. O copo em sua mão parece uma pluma, o vestido leve que envolve seu corpo parece uma pluma, ela parece uma pluma flutuando em meio às pessoas da festa, mas estou pouco me lixando. Talvez antes, antes de Clara ter me deixado, quando eu era bem-humorado e não bebia tanto, talvez aí eu encontrasse a vontade necessária para flertar com uma bela mulher. Mas antes, como alguém disse, já foi, e o que é agora não é nada bonito. Seu rosto, que antes me hipnotizaria com sua simetria, hoje é uma pelanca esperando para acontecer. As pernas grossas e torneadas para mim parecem os cambitos tortos de um goleiro. Cerro a cara e desvio o olhar quando ela chega perto da minha cadeira.

- Oi. - sussurra, allego molto troppo. Voz grave, linda.

Grunho.

- Você não é o irmão do dono da casa? - ela pergunta, sentando na cadeira ao lado. Tenho vontade de suspendê-la e atirá-la de volta para os convidados. Ela parece gentil, o que aumenta minha indisposição.

- Eu tenho esse suspeito privilégio. - murmuro, e ela ri.

- Por quê "suspeito"? - respiro fundo, ainda sem olhar. Ignoro a pergunta, mas ela insiste:

- Por quê “suspeito privilégio”?

- Porque, sendo o irmão do dono da casa, eu tenho que ficar ouvindo a conversinha fiada de cada uma que passa e senta do meu lado sem ser chamada.

Ela petrifica. O copo, que flutuava como uma pluma, escorrega pela mão até pousar na mesa. Seus olhos incrédulos se agarram aos meus, mudos: sua beleza e sensualidade a haviam poupado de ouvir qualquer desagrado durante toda a vida. Hoje, porém, ela descobriu que sua carinha de anjo não vale um tostão furado neste mundo de boçais. Creio que deveria me agradecer.

- E fecha logo essa boca que você está com um puta de um bafo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

(2)

o problema em ser um ladrão com dupla personalidade é que você nunca sabe onde suas coisas estão.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

partido

- Você está bem?!
- Hã? Oi...?
- Não, fique deitada. Eu já ia chamar a ambulância.
- Eu estou bem... Quem é você?
- Te encontrei largada no meio da rua! Desculpa ter te trazido pra cá, mas é que eu moro perto e fiquei com medo de te passarem por cima. Eu sei que não é pra mexer em vítima de acidente, mas não dava pra te deixar lá. Atropelaram você?
- Não sei.
- Fica deitada. Você está pálida!
- Estou bem.
- Tá sentindo dor?
- Não... não estou sentindo nada.
- Ai, caramba. Peraí, deixa eu ligar pra ambulância...
- Não estou sentindo nada.
- Alô? Pombas! Não era 193?
- Esqueça isso. Fica comigo.
- Mas eu tenho que chamar um médico! Eu chamaria minha namorada, mas ela tá viajando. Está um baita frio lá fora. Você tá com frio? Quer um cobertor?
- Não estou sentindo nada.
- Tá, tá, ok. Deixa eu dar uma olhada em você... tá doendo? Aqui?
- Não.
- Parece que você não quebrou nada. Mas seu braço está branco! Seu rosto também!
- Calma. Não gosto de gente gritando.
- Dá pra ver as veias no seu braço, olha só!
- Senta.
- Ok, ok, fica calma... cacete, ninguém atende!
- Você tem um rosto bonito.
- ´Brigado. Você também. PORRA! Caiu a ligação de novo!
- Pega no meu pulso, por favor.
- Tá. PUTZ, seu braço tá gelado!
- Você sente minha pulsação?
- Peraí... não. Não estou sentindo, não! Ai, caramba...
- Pega aqui no meu peito. Sente meu coração.
- Opa, licença. Tá frio.
- Sente algo? Encosta o ouvido.
- Hmmm...
- E?
- Não estou sentindo nada.
- Está vendo? Minha mão está ficando roxa, escurecendo. Não sinto dor, nem frio, nem nada. Não consigo pensar em mais nada além do que estou vendo.
- Fica calma.
- Estou calmíssima. A lâmpada da sua sala está muito forte pra mim; acho que isso significa que minhas pupilas não estão mais contraindo. Vê? As unhas já estão pretas. Minhas pernas estão começando a endurecer.
- Eu vou pegar um copo d´água pra você, ok?
- Não. Fica comigo. Por favor.
- Espera, eu já volto!
- Meu corpo está ficando inchado; antes, ele abria os poros quando precisava expelir água. Mas os poros não abrem mais, e a água fica acumulada no corpo.
- Estou chegando!
- Eu pedi pra você ficar, mas você não quis.
- Pelo amor de Deus, estou trazendo a água!
- Porque você não ficou...?
- Cheguei!
Mas, quando ele chegou, ela já havia partido.

desenganar

Depois de dois meses juntos, tudo o que fazem agora é ficar cada um em sua própria casa. Ele a proibiu de vê-lo; ela está assustada.

Durante longas horas, todos os dias, ele rejeita seus telefonemas, suas tentativas de contato. Está ocupado demais construindo uma imagem dela, que, jura, permanecerá nos anais da literatura lírica por tempo infinito.

Ela está puta, porque se recusa a transformar-se num totem. Deseja apenas amá-lo.

Hoje, ele se recusa novamente a vê-la. Prefere pensar que está morta: tanto melhor para o poema que tenta escrever, no qual compara o rosto de cadáver que ela ostenta com a alvura das colunas da Acrópole. Deseja torná-la o arquétipo do amor perdido, da paixão irrefreável e absoluta que leu em tantos poemas e que viu em tantos filmes do cinema mudo, que viu expressa nas telas dos mestres e nas esculturas clássicas. Não namora mais uma garota, mas uma idéia, ainda que essa idéia esteja batendo em sua porta nesse exato minuto e tentando chamá-lo de volta à razão abandonando essas intenções estúpidas.

Impávido, ele tampa os ouvidos e busca visualizar sua amada imortal, falecida sobre a tumba de Lenora; morta, morta, morta.

Ela esmurra a porta e castiga a campainha:

- Eu estou aqui, idiota! E não num livro!

Ele agarra o abridor de cartas e aproxima-se da porta trancada, ansioso para dar vazão a sua verve poética.