" Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum - uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais." (Edgar Allan Poe, "O gato preto")
Uma única imagem perseguiu-me durante toda minha longa vida: eu, aos sete anos, chorando ao lado da janela e sendo repreendida por mamãe. Também me lembro de ver minha avó debruçada na janela, procurando alguma coisa.
Por décadas e décadas, essa fotografia mental me perturbou até o âmago de minha alma, fazendo-me retornar aos medos de menina no exato instante em que dela me recordava.
O impacto dessa lembrança dos meus sete anos meio que desviou minha trajetória para uma determinada direção. Nos anos seguintes, tudo – ou quase tudo – parecia originar-se daqueles gritos tenebrosos de minha mãe. Minha sensibilidade aguçou-se, e passei a considerar cada vida frágil e preciosa. Por incrível que pareça, passei a gostar de animais, e tentei transmitir à minha filha, assim que nasceu, minha paixão fervorosa por todos os seres vivos.
Dessa forma, é possível imaginar meu assombro quando, ao chegar em casa, minha mãe contou-me que a menina, em seus tenros sete anos, havia jogado seu gato pardo pela janela. Furiosa, chacoalhei a menina e berrei, disparando as frustrações acumuladas ao longo do dia e da vida, buscando fazer com que ela apreendesse a importância que cada existência possuía na tessitura do universo. Ela rompeu em prantos, obviamente. Arrependi-me do escândalo logo depois, mas não voltei atrás. Minha mãe, desesperada, buscava no asfalto o gato que a acompanhara por quase toda a velhice.
Naquela noite, temi haver traumatizado minha filha. Tive ganas de ir até seu quarto, acordá-la e beijá-la e dizer-lhe que poderia arremessar pela janela quantos gatos pardos quisesse, que eu nunca mais gritaria com ela daquele modo. Mas não o fiz: receei que, caso afagasse sua cabeça naquele momento, ela nunca aprenderia a lição. Permaneci na cama.
Creio que o incidente acabou causando grande impacto em sua personalidade. Da noite para o dia, tornou-se mais amarga e rancorosa. Os anos se passaram sem que, aparentemente, a lembrança daquele dia enfraquecesse em sua memória. Fingia ser gentil com todas as pessoas e animais, mas eu, sua mãe e criadora, sabia que ela não possuía qualquer amor sincero por qualquer ser que se arrastasse sobre a Terra. Era como se meus gritos houvessem interrompido, em um momento crítico, o natural processo de formação de seu temperamento. Naquele dia, algo morrera nela.
Ainda assim, vivi calada meus anos em seu apartamento e tolerando seus gestos vazios e indiferentes. Quando ela me comprou um gato, em sua auto-propalada ânsia de mostrar-se caridosa com sua mãe e um gato ao mesmo tempo, permaneci muda. Até quando nasceu minha neta, nenhuma satisfação cresceu em mim: observava o rostinho da criança por horas a fio, vendo-a chorar sem nada fazer. Finalmente, dava-lhe o leite ou trocava as fraldas, indefesa diante das escolhas que a vida havia me legado.
Diante da silenciosa e monótona derrota que minha filha havia me imposto, pude apenas praticar uma última vingança. Um dia, quando a neta já possuía lá seus sete anos, aproximei-me da janela com meu gato pardo. Por um largo tempo eu fingira que gostava do animal quando, na verdade, nada sentia além de asco por ele. Lembrava-me minha filha. Ela, tão fútil e cheia de si; tão vazia.
Senti que minha vida não havia passado de um tortuoso círculo de enganos e falsidades. O caminho a seguir parecia mais claro. Assim, levantei o gato e o empurrei pela janela.




